Trupe Dramática Aveirense (1887-1901)
Nos finais do século XIX, havia na cidade vários grupos de “curiosos” que se juntavam com dois objectivos: ocupar os tempos livres e angariar fundos para auxiliar associações humanitárias ou algum necessitado da terra. De acordo com os vários periódicos locais, que se referiram a estas récitas, eram geralmente “mancebos” ou “estudiosos rapazes”, aos quais se aliavam, ocasionalmente algumas “damas” da cidade ou actrizes vindas do Porto. A pouco e pouco, estas “trupes de curiosos”, vão aparecer associadas a António Duarte Silva, o ensaiador da maior parte desses jovens, dando assim início a um grupo mais organizado e formal, sob o nome de Trupe Dramática Aveirense[1]. De acordo com um periódico local, foi em Dezembro de 1887 que se juntaram pela primeira vez, tendo a estreia sido a 18 de Março de 1888. [O Povo de Aveiro, 1.7.1888]:
Segundo nos informam, um grupo de rapazes desta cidade prepara-se para levar à cena o drama em 5 actos Os trapeiros de Lisboa, do falecido escritor Leite Bastos, devendo os ensaios principiar por estes dias. Nestas enfadonhas noites de inverno, é realmente agradável uma diversão desta natureza, principalmente numa terra como Aveiro, onde escasseiam os divertimentos. [O Povo de Aveiro, 18.12.1887]
Como estava anunciado, realizou-se no passado domingo, no Teatro Aveirense, o espectáculo da trupe de amadores desta cidade com o drama em cinco actos Trapeiros de Lisboa. [...]
O desempenho por parte de todos os amadores, à parte algumas pequenas falhas que são desculpáveis em quem pisa o palco pela primeira vez, foi além do que se esperava. A plateia aplaudiu-os por diversas vezes. [...]
O sr. António Pinheiro Duarte Silva, que ensaiou os amadores, e a quem se deve em grande parte a maneira porque todos eles se houveram, foi chamado ao proscénio no fim do espectáculo e saudado com uma salva de palmas. [O Povo de Aveiro, 25.3.1888]
Provavelmente, foram estas palmas que os fizeram continuar a apresentar-se em público, não tardando muito a que novo projecto os unisse:
É na próxima sexta-feira que tem lugar no nosso teatro a récita da trupe dramática aveirense, cujo produto, como é sabido, deverá reverter em favor do monumento a José Estêvão. [...]
Como já dissemos, os amadores são desta vez também ensaiados pelo Sr. Duarte Silva, cuja competência para esta ordem de serviços se torna desnecessária conhecer. [O Povo de Aveiro, 24.6.1888]
Estava assim organizada a primeira companhia de amadores, fundada após a inauguração do Teatro Aveirense. Com laivos de algum profissionalismo, a divulgação do espectáculo é feita através de um programa, onde constava o nome dos intervenientes. Até aí, os amadores só divulgavam os espectáculos via imprensa. Neste caso, a vontade de publicitar de uma forma mais profissional, talvez se prendesse com o facto de ter sido um espectáculo de assinatura, à boa maneira das companhias nacionais, que só se apresentavam, caso houvesse garantia de público, o que era conseguido através da reserva e venda antecipada de bilhetes. Ainda para mais, tratava-se de uma peça que já tinha sido um sucesso, há vinte anos, no já extinto Teatro da Rua do Rato. Desta vez, os amadores não se pouparam a esforços, tendo construído uma fragata verdadeira, necessária para o prólogo! Pelos vistos, o investimento justificava-se, uma vez que, daí em diante, alcançarão mais enchentes do que as companhias que faziam desta vida o seu “ganha-pão”.
Na realidade, a “prata da casa”, com os seus benefícios constantes, conseguia mobilizar a população em maior número. Isto acontecia sempre que se queria ajudar um actor (local ou não) em dificuldades, uma Sociedade Artística, os Bombeiros ou até o próprio Teatro Aveirense. De um modo geral, estes espectáculos mereciam muito crédito dos periódicos locais, sempre defensores dos seus conterrâneos:
[...] O desempenho correu à altura dos créditos da Trupe, que se compõe exclusivamente de artífices nossos conterrâneos, alguns deles com bastantes aptidões para o palco, e que, nas poucas horas livres, se entregam a este género de estudos.
Manda a verdade que se diga que já os vimos fazer pior figura, o que, de certo, não quer dizer que a récita de quinta-feira fosse obra sem senões. As actrizes [Amélia Garraio e M. Estefânia] saíram… diga-se o termo, porque a aplicação é justa, saíram uma verdadeira peste. Ou elas não viessem do Porto! [...] Verdadeiramente detestáveis. [O Povo de Aveiro, 24.12.1899]
Em 1889, a trupe fez-se anunciar largamente nos jornais, promovendo uma récita que, na verdade, só veio a verificar-se em Fevereiro de 1890. E não poderia ter sido em melhor altura, em virtude do momento político que se vivia :
[...] o país inteiro se revolta, com enérgicos protestos, contra a pirataria da velha Albion, é justo qualquer manifestação patriótica que patenteie a nossa aversão e o nosso ódio pela prepotência vil duma corte de bandoleiros embriagados.
Além desta festa ser dedicada aos patriotas aveirenses, e, para frisar mais o nosso ódio pelos consumidores de cerveja, haverá, ao subir o pano, um manifestação patriótica oferecida à intrépida e laureada mocidade académica, que tão condignamente se tem dirigido na pendência anglo-lusa. [O Povo de Aveiro, 26.01.1890]
Depois de muita publicidade e alguma espera, a comédia Abel e Caim é levada à cena, com “uma enchente à cunha”. Os rapazes dedicaram a sua actuação aos patriotas aveirenses e o público, ruidosamente, manifestou a sua revolta contra o Ultimato Inglês, e a “fiel aliada” [ibidem]. Tudo foi preparado ao pormenor. O edifício foi engalanado para o efeito, com bandeiras na fachada, flores “de verdura viçosa” nas frisas, camarotes ostentando troféus e, no palco, as armas de Aveiro. A cena, ricamente decorada como nunca se tinha observado, foi patrocinada por uma casa de “primeira”, apresentando mobílias “douradas e estofadas a damasco verde”, iluminadas por “inúmeras luzes em serpentinas de prata” e um “lustre de cristal”, pode ler-se em O Povo de Aveiro, de 9 de Fevereiro de 1890. O espectáculo começou com a comédia em um acto A cabeleira da minha mulher, após a qual se seguiu Abel e Caim. Para o final, estava reservada a alegoria John Bull, escrita propositadamente para a noite, que colheu mais aplausos do que alguma vez se tinha assistido. Em palco, narrava-se a captura do gatuno britânico John Bull por Serpa Pinto, e tudo terminava com um abraço entre os que simbolizavam os povos latinos. E os artistas, apesar de amadores, sabiam o que o público gostava de ver:
[...] Custou a calar o público para se analisar o decorrer da peça. Mais tarde, [...] apareceu Serpa Pinto empunhando a bandeira nacional, retalhando a golpes de espada o farrapo ignóbil dos bretões, e deitando a mão a John Bull, redobrou a manifestação duma forma que não se descreve. [...]
O artista que desempenhou o hediondo papel de John Bull teve então uma bela ideia: apareceu em cena, empunhando a bandeira das Quinas e rasgando o farrapo vil que simbolizava a Inglaterra. Acolheu-o uma prolongada salva de palmas. [O Povo de Aveiro, 9.02.1890]
Eram duas horas quando tudo terminou, não sem que antes fosse oferecida à Trupe um “bem trabalhado bouquetde flores artificiais” [ibidem].
A seguir a este sucesso, a trupe ainda fez mais apresentações, curiosamente, de dois em dois anos: 1890, 1892, 1893, 1895, 1897, 1899 e 1901 (anexo IV). O seu último benefício foi a 22 de Dezembro de 1901, a favor “do Sr. António Simões Lebre, chefe do corpo de polícia que há pouco teve a desventura de ser acometido por uma paralisia” [Distrito de Aveiro, 9.12.1901]. À semelhança do que tinham feito noutros espectáculos, convidaram a actriz aveirense Isaura Ferreira, residente no Porto, a participar. Esta, à última da hora, não pôde vir, tendo, contudo, mandado 5$000 réis “do seu bolsinho” [ibidem]. A partir daí, o grupo nunca mais se juntou, pelo menos sob o mesmo nome, tendo grande parte dos elementos ingressado, posteriormente, no Clube dos Galitos, como foi o caso de Adriano Costa, José da Maia, José Pereira e Júlio da Silva.
[1] O livro de contas da sociedade do Teatro Aveirense, aberto a 27 de Julho de 1881, chama-lhe Sociedade Dramática Aveirense. Optou-se, aqui, por se utilizar o nome constante nos anúncios na imprensa.

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