Teatro da Fábrica
O mais antigo teatro conhecido como tal é o Teatro de São João Baptista, também chamado de Teatro/Teatrinho da Fábrica. Não há dados certos sobre a sua inauguração, sabendo-se, com certeza, que foi em 1856, uma vez que se podem encontrar cartazes pela imprensa de então. De acordo com algumas edições do Campeão do Vouga, publicadas em Julho desse ano, estava a ser construído na casa do senhor João da Silva, à Fábrica da Louça, daí o nome porque era conhecido. No entanto, o Campeão das Províncias, de 19 de Maio de 1860, refere que “A Sociedade Dramática, que devia amanhã subir à cena no Teatrinho de São João Baptista adiou o seu espectáculo para quinta-feira, 24 do corrente, a fim de celebrar n’este dia o aniversário da sua inauguração”. É provável que o periodista deste artigo estivesse equivocado, uma vez que, diversas edições do Campeão do Vouga, de 1856, se referem a este novo espaço: em Maio desse ano, os únicos espectáculos teatrais da cidade ocorreram no já referido teatro particular em casa do senhor Matias Freherder, ao Rossio; em Julho ainda estava em construção, datando de 31 de Agosto o primeiro espectáculo registado.
Os artistas quiseram confundir o nosso município e começaram a fazer um teatro na casa do nosso patrício o Sr. João da Silva, à Fábrica da Louça. Informam-nos que a sala do espectáculo é pequena, mas que está preparada decentemente, oferecendo comodidade suficiente para duzentas pessoas na plateia e cem na galeria.
Folgamos de registar este acto de nobre dedicação das classes laboriosas pela arte dramática. Quando a corporação municipal descurara de promover com eficácia a construção do edifício do teatro, os artistas apressam-se a fazer o que a ilustríssima câmara não quis empreender! Vejam e avaliem! [Campeão do Vouga, de 9 de Julho de 1856, P. 2]
A Companhia que há pouco deu algumas récitas no teatro do Rossio, regressou a esta cidade e vai dar algumas representações no teatro de S. João Baptista. Amanhã é a primeira noite de espectáculos, como se verá no anúncio publicado na secção competente. [Campeão do Vouga, de 30.08.1856, P. 4]
O Campeão do Vouga levanta ainda outras dúvidas relativas a esta sala, nomeadamente no que diz respeito à sua lotação: num artigo de 9 de Julho de 1856, diz-se que tem capacidade “para duzentas pessoas na plateia e cem na galeria” enquanto que, dias depois, a 30 de Julho, fala em cem pessoas, na plateia, e sessenta, na galeria. A discrepância entre estes números indicia-nos que as fontes nem sempre eram fidedignas e, por vezes, exageravam, quer fosse por ignorância quer propositadamente, neste caso, com a clara intenção de exaltar excessivamente os feitos conseguidos.
Uma coisa é certa: as condições eram modestas e acanhadas, mas os artistas aveirenses estavam empenhados em fazer aquilo que a Câmara não fazia – dotar a cidade de uma sala de espectáculos.
Passamos a [sic] dias a ver o teatro que os artistas andam a construir no edifício da fábrica do Sr. João da Silva. A sala é pequena, mas proporcionada. A plateia dá lugar para 100 pessoas e a galeria para 60. O palco tem suficiente capacidade, a boca é rasgada e o todo, apesar de circunscrito, é decente e modesto, não obstante ser uma obra empreendida e executada pelas classes laboriosas.
É preciso porém que a Câmara mande reparar a rua que dá para a fábrica, porque o piso não pode ser mais incomodante. Parte da calçada está de tal forma arruinada que impede o livre trânsito.
Já que a ilustríssima câmara não construiu com a ajuda do estado, que lhe concedeu um edifício hábil, o teatro que lhe disse queria edificar na rua do Açougue, é indispensável que proceda quanto antes, ordenando a reparação daquela rua, a fim de que o público dela possa servir-se sem molestar-se nas noites de récita. [Campeão do Vouga, de 30.07.1856, P. 2]
Quanto ao tipo de construção, poucos dados temos, a não ser os testemunhos dos jornais que, por vezes, falam em plateia e galeria: a primeira, para tricanas, a segunda, para damas. Por sua vez, a galeria estava também dividida em inferior e superior. Esta divisão era notória sobretudo ao nível do comportamento esperado destes dois públicos, uma vez que as damas não se misturavam com as mulheres do povo, como o comprova o Campeão do Vouga, de 10.10.1857, ao referir-se ao público que, dias antes, assistira ao drama A Graça de Deus e à farsa A família do Boticário. Segundo o articulista, “houve enchente na plateia. Na galeria estavam algumas damas. Na galeria inferior não havia lugar vago. Infelizmente a quantidade não correspondeu a qualidade, pelo que respeita à plateia, a qual poucas vezes temos visto menos ilustrada”.
Sobre os espectáculos aí encenados constatamos que se trata essencialmente de dramas e comédias havendo, também, algumas farsas e óperas. Eram, na generalidade, representações feitas por amadores locais, e/ou por companhias itinerantes, registando-se alguns espectáculos com companhias espanholas – e as muito apreciadas operetas - e também com companhias nacionais. Apesar de virem de fora, nem sempre eram garante de sucesso, e, por vezes, pouco público atraíam.
Em 1857, o Campeão do Vouga lamentava a má escolha das peças, o que levava a que o público as acolhesse friamente:
Em Aveiro há uma vocação decidida para o teatro, mas quase sempre a escolha é desgraçada. Não se compendiam os melhores autores nem se medem as forças dos actores. Em havendo um drama, salgado de peripécias desusadas [...] ei-lo em cena freneticamente apoiado pela Companhia mas friamente acolhido pelo público. [...] Muitos dos actores que têm pisado o palco do teatro São João Baptista não passarão da plana medíocre, porque não sabem estudar-lhes a vocação, nem distribuir-lhes os papéis. O reportório enviusado dos velhos arquivos é compulsado a miúdo mas os resultados deviam ter feito mestres aqueles que se reputam oráculos entre os da sua tribo. Às vezes as récitas contam-se pelas catástrofes. [...] [Campeão do Vouga, 23.12.1857]
Nem com o passar dos anos, a situação melhorou:
[...] O Drama (melhor fora a tragédia) foi mal escolhido. Além da acção ser mal conduzida, é tão inverosímil que, em vez de ser recebido das plateias, produz um efeito negativo. [O Campeão das Províncias, 16.05.1860]
Apesar de tantas críticas e lamentações, era o único espaço onde se faziam espectáculos. Por tal motivo, era também carinhosamente chamado de “teatrinho”. Para piorar a situação, o público não sabia a diferença entre o teatro e a Praça de Touros, o que poderia levar certas famílias decentes a não o frequentarem. Pouco depois, a 16 de Agosto de 1857, João Silva Pinho adquiriu o local por 185.595 réis:
Consta-nos que o senhor João da Silva de Pinho efectuou a compra deste teatro. [...] Sabemos que este senhor vai portanto facultar o teatro sem restrições a todos os indivíduos que nele quiserem representar. Louvamos este expediente, da mesma forma que censurámos as exclusões feitas pela Sociedade. [Campeão das Províncias, 3.09.1857]
Sendo este o único palco existente na cidade onde se podia representar, era compreensível que a preocupação se instalasse: os amadores receavam que o novo dono do espaço não o abrisse a todos os praticantes da arte enquanto que outros temiam que este se tornasse um local vedado a algumas pessoas. Polémicas à parte, este continuava a ser o único palco existente, com uma actividade dramática regular, acolhendo não só os amadores locais como também artistas nacionais e espanhóis.
Em 1861, após um espectáculo da Companhia Dramática Portuguesa, o Distrito de Aveiro, de 20 de Setembro, diz que “Aveiro deve envergonhar-se de não ter um teatro e de obrigar as companhias que por aí vem a representar em um armazém”. Dias depois, lamenta-se novamente das parcas condições do teatro, que “por falta de capacidade, não oferece vantagens para execução de peças aparatosas, nem comodidade para os espectadores” [Distrito de Aveiro, 1.10.1861].
Em 1862, o Campeão das Províncias vaticinava o seu fim, acusando a sociedade responsável como aquela que “fundou e afundou o tal teatrinho (releve-se a insistência no diminutivo)” e que, nessa altura, passava por algumas dificuldades.
Após a abertura do Teatro da Rua do Rato, em 1862, deixou de ser referência na imprensa local (anexo IV).

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