Clube dos Galitos (1904-1965)

De todos os clubes locais que pisaram os palcos do Aveirense, este foi, sem dúvida, o mais marcante não só pela sua longevidade, mas sobretudo pelos sucessos ímpares que granjeou, fruto da dedicação e bom trabalho desempenhado pelos seus componentes. Sempre que encenavam alguma peça ou revista, a expectativa era perpetuamente desmesurada e os bilhetes, para os seus espectáculos, acabavam por esgotar ainda antes da estreia. Por este motivo, as reposições eram inevitáveis, acontecendo ao longo de vários dias ou meses.
 Fundado no ano de 1904, a partir de dissidências com uma outra sociedade – a do Recreio Artístico. Numa assembleia algo conturbada, ficou célebre a frase proferida por alguns anciãos: “Onde há galos de fama que vêm galitos cá fazer?” Os jovens afastaram-se e fundaram aquela que viria a ser a maior colectividade de todos os tempos: O Clube dos Galitos, não só a nível cultural como também desportivo[1].
 Para obterem receitas próprias, socorreram-se da mesma fórmula de outras associações: os espectáculos teatrais. Se inicialmente procuravam mais-valias para a aquisição de uma sede maior, ou para socorro dos mais carenciados, mais tarde, as revistas locais levá-los-ão a palcos maiores: Porto, Lisboa, Coimbra, Viana do Castelo, Viseu... Um sucesso ímpar para um clube amador.
A primeira vez que subiram à cena foi a 23 de Abril de 1905, com as comédias Hospedaria infernal e A pérola dos caixeiros. A fama alcançada foi tanta que, desde aí, e quase todos os anos, surgiam com novas peças, apesar de os êxitos anteriores nunca serem esquecidos e postos de lado. É que a população saía do teatro a entoar os cânticos da revista fazendo, por isso, com que as reprises fossem quase imediatas.
            Dois anos após a sua estreia, a reputação era já tanta que todos esperavam deles bons e agradáveis saraus. Isso é-nos testemunhado pelo Distrito de Aveiro, que, a seguir à estreia da peça Espertezas de rato, a 3 de Agosto de 1907, diz o seguinte: 

Correu esplendidamente, como o contrário não era de esperar, o brilhante Sarau promovido por um grupo de sócios do Clube dos Galitos e realizado no nosso teatro anteontem.
Não podemos, nem devemos, especializar este ou aquele intérprete, pois todos, sem distinção, interpretaram admiravelmente os seus papéis sendo, por isso, alvo de justos e calorosos aplausos. [O Distrito de Aveiro, 5.08.1907]


E essa fama vai continuar, fazendo com que, durante muitos anos, o palco do Aveirense não chegasse para todos os que não queriam perder a oportunidade de testemunhar os feitos dos Galitos.

Jornais de longa circulação na localidade, bem como todos os outros nossos colegas locais, ao que eles disseram, seria fastidioso acrescentar mais referências [...]. Foram duas noites cheias, vividas, de entusiasmo vibrante e explodindo das plateias, como poucas vezes temos visto aqui. [O Aveirense, 29.03.1908]


            Este periodista referia-se aos espectáculos dos dias 21 e 22 de Março, no qual apresentaram as zarzuelas A marcha da Cádis A pastora (La madre del cordeiro), com a lotação do teatro completamente esgotada, dias antes da estreia.
Em 1909, o público já está de tal forma rendido aos êxitos do clube que o jornal Beira-Mar publica a seguinte crítica a um espectáculo:

     [...] O grupo conta elementos de grande merecimento, rapazes e tricanas que no desempenho de vários papéis mais se avizinham de profissionais do que de curiosos, como se apresentam.
     Para quê por nomes em destaque? Seria um comboio de mercadorias tendo por vagões uma enfiada de nomes, mais extensa que a lista de santos e santas de que reza a igreja neste incipiente mês de Maio. [...] O grupo é admirável e satisfeitos devem todos estar pelos aplausos com que o público coroou o enorme trabalho, o incalculável trabalho que representa a sua obra. [Beira-Mar, 2.05.1909]

No entanto, num grupo com tantos elementos, é natural que nem tudo corra bem. Os jornais a isso se referem: 
     
O que convém é não se deixarem cair em desânimo [...]. Nada de ouvidos a intrigas de bastidores; sigam estudando e o público continuará fazendo justiça no merecimento de cada, apreciando todos com os carinhosos aplausos que lhes têm dispensado. [ibidem]

Esses problemas culminam com a notícia do dia 3 de Junho de 1909 de O
Distrito de Aveiro, onde se anuncia que o grupo se desmanchara, desmarcando récitas em Coimbra e Guimarães. O artigo termina solicitando que “alguém o reorganize”. Apesar de os periódicos da época apontarem problemas de índole comportamental no seio do grupo, o Litoral, de 2 de Julho de 1955, evoca a partida de uma das principais actrizes – Augusta Freire – como a causadora da cisão. Sem a sua “dama galã”, os Galitos não tinham quem brilhasse como ela e, assim, não fazia sentido continuarem. 
Em 1910, António Máximo e Manuel Moreira, escrevem e ensaiam a revista de costumes locais Alhos e bogalhos. Desempenhada só por rapazes, em “travesti”, durante o carnaval, causou muita graça e hilaridade na população.  Nesta altura, a colectividade adopta o nome de Tricanas e Galitos. A 9 e 10 de Julho, obtém duas noites de estrondoso triunfo, em Viana do Castelo, com zarzuelas: A marcha de Cádis El Caramelo, no primeiro dia, e El Bateo e A pastora, no segundo.
Até 1913, vão repondo os títulos anteriores, em actuações esporádicas. Seguem-se novos títulos, com grande sucesso: Ao correr da fita (1913), Os dois viúvos, Amor e ciúme,  (1914) Calisto Júnior e a opereta Amores no campo(1915). 
Por meados de 1917, uma nobre causa reuniu-os: ajudar os Soldados Mutilados de Infantaria nº 24 que combatiam na guerra em França. Para reporem as zarzuelas que tanto sucesso lhes tinham trazido anos antes - A marcha de Cádis e A pastora – trouxeram de Lisboa Augusta Freire. Com o seu regresso à capital, o cénico dos Galitos voltou novamente a desfazer-se, para mágoa da população. Esta tristeza era sentida por muita gente, como o demonstrava, em 1920, O Democrata, na sua edição de 14 de Agosto. Nessas páginas, o articulista lastimava-se de não existir mais o grupo “do qual nos lembramos com saudade, pelos triunfos e pela impecabilidade e consciência do seu trabalho”. O regresso definitivo, com o nome Grupo Cénico do Clube dos Galitos, dá-se a 3 de Agosto de 1922, com a peça policial 20 000 dólares. Apesar de ter sido já apresentada em Aveiro, uns anos antes, os Galitos decidiram ensaiá-la com o propósito de a levarem a Viana do Castelo, durante uma excursão do Clube. A partir daí, os triunfos vão-se multiplicando: A caldeirada (1924), A campesina (1926), Cavalleria Rusticana (1926), Amanhã (1926), Ao cantar do galo (1936) e Molho de escabeche (1940). Quase todos estes títulos pertencem a revistas locais cujo enorme sucesso fará com que sejam depois repostas, com ligeiras alterações e sob outros nomes: A filha da caldeirada (1925), Ao cacarejar da galinha (1937), Ainda canta o galo(1961) e Escabeche e piripiri (1965). De referir que, algumas destas datas coincidem com períodos em que se festejava o aniversário de uma das revistas anteriores.
Vários feitos são atribuídos a este grupo: por um lado, o de conseguirem a casa esgotada, mesmo ao fim de várias representações; por outro, o facto de surpreenderem públicos mais exigentes, como seriam, à partida, os de Lisboa e os do Porto. O sempre vasto número de elementos também fazia inveja a qualquer colectividade, tendo chegado às seis dezenas, nos anos quarenta. Durante algum tempo, o grupo orgulhava-se de ter sido o primeiro a apresentar Cavalleria Rusticana, em língua portuguesa, numa tradução de José Duarte Simão, tendo inclusive anunciado o prólogo Amanhã como sendo digno de uma Companhia Nacional. O público rendia-se de tal maneira aos seus espectáculos que, depois, as companhias profissionais mereciam-lhes pouca admiração e entusiasmo. Aconteceu à Grande Companhia de Comédias Maria Matos que, a 15 e 16 de Junho de 1936, dois dias depois de ter sido exibida a revista Ao cantar do galo, viu duas das suas exibições – A bicha de rabiar e Tabú - serem anuladas por falta de comparência de público.
Quanto às récitas dadas, com cada revista regional, destacam-se as subsequentes: 
·      A caldeirada – 18 representações (Aveiro, Coimbra, Porto e Viseu)
·      Ao cantar do galo - 20 representações (Aveiro, Coimbra, Viana do Castelo e Lisboa), sempre esgotados;
·      Molho de escabeche – 20 representações (em Lisboa e Porto deram três dias de espectáculos sempre esgotados).

Onde quer que actuassem, a qualidade das suas representações não deixava ninguém indiferente. Vários críticos de Lisboa e Porto se referiram, em jornais de tiragem nacional, à qualidade desta colectividade, uma vez que as suas revistas eram, em muito, superiores às dos profissionais. O regresso era feito em apoteose, ao som de bandas de música, foguetes e morteiros. Nesses dias, ninguém ficava em casa. Todos queriam aplaudir e saudar os habilidosos rapazes e raparigas que tão longe tão bem tinham publicitado o nome da terra.

Este sucesso será compensado pelo Governo da altura que, apesar de alguma censura interventora nos textos, os agraciará com o grau de “Cavaleiro da Ordem de Benemerência”. No entanto, a pouco e pouco, as dificuldades vão tomando conta dos ânimos e, logo após o espectáculo O molho de escabeche, o Clube dá por findas as actividades do Cénico. Pontualmente, são feitas algumas tentativas para recomeçarem mas todas em vão, nomeadamente em 1964, aquando da comemoração dos 40 anos da Caldeirada. A revista em estudo até já tinha nome - Música e foguetes – mas Flávio dos Santos, o autor da música, e Amadeu de Sousa, autor da letra, não conseguiram que a mesma entrasse em ensaios. Em 1974, foram muito festejados os 50 anos da Caldeirada, onde, mais uma vez, se reviveram excertos da mesma (anexo III, fig.s 21 a 25).

______

Democrata, 6.02.1909:



Democrata, 13.02.1909:



[1] Ambas subsistem, sem qualquer ligação ao teatro.

Comentários

Mensagens populares