Teatro na Feira de Março

            A Feira de Março sempre foi - e ainda é - um dos locais de divertimento preferido dos aveirenses, devido à variedade e ao preço barato das diversões. Se, actualmente, os hábitos culturais são, felizmente, mais variados, e a oferta de passatempos maior, tempos houve em que só a Feira de Março é que desempenhava tal papel, cabendo-lhe, ainda a função de mostrar o que se fazia noutras localidades. Aqui viam-se as exibições de artistas de diversas áreas ou simplesmente artistas que gostavam de exibir as suas singularidades, à semelhança do que acontecia um pouco por toda a parte, noutras feiras. Eram muito apreciados os espectáculos dos “Circos de Cavalinhos” – onde se faziam exibições acrobáticas, equestres e cómicas -  ou as transformações, prestidigitações e mágicas de  pantomineiros vindos dos mais diversos cantos do mundo. Foi graças a esta Feira que muitos se habituaram a ir ao teatro, dando origem a inúmeros actores diletantes.

O registo mais antigo de espectáculos realizados na Feira de Março, reporta-nos ao ano de 1837 e é mencionado por Eduardo Cerqueira no seu artigo “Relance sobre a evolução da secular Feira de Março”, inserido no volume XIII do Arquivo do Distrito de Aveiro, e mais tarde recordado pela imprensa local:

O mais antigo dos espectáculos apresentados na feira que chegou ao meu conhecimento, pelo entusiasmo que despertou no público, foi, em 1837, o Circo Olímpico («sercolo olimpio», na estapafúrdia ortografia do escrivão da Câmara do tempo). Avrilon, artista e empresário, granjeara grande popularidade com a representação de uma qualquer composição cénica, de tons heróicos, em que saía exaltada a figura de D. Pedro IV. [Litoral, 26.03.1955]

Segundo o historiador aveirense, foi José António de Resende quem, em nome de Francisco Abrilom – o director da companhia – requereu o sítio, no largo do Rossio, onde se pudesse montar o espectáculo. Na falta de alguém competente para delimitar tal espaço, foi a sessão da Câmara, do dia 8 de Março de 1837, interrompida, para que a própria vereação o fizesse. Ninguém queria perder a oportunidade de ter tal divertimento na cidade. E é muito provável que, nos anos seguintes, tivesse voltado, uma vez que, em 1887, a Câmara de Aveiro fixou algumas taxas a serem cobradas aquando da feira de Março nos “[...] espectáculos públicos, já com simples exposição de figuras, ou animais de qualquer ordem, já com representação dramática, já com cavalinhos, fantoches, pim-pam-pum, etc.” [Litoral, 26.03.1955]
A 19 de Março de 1889, iniciam-se as sessões de teatro, no “Barracão do Rossio”, um espaço em madeira construído propositadamente para a feira e onde as companhias permaneceriam durante alguns meses, mesmo depois de a feira ter terminado. Nesse ano, coube ao senhor Dalot a exploração do espaço, da qual não se deve ter arrependido, uma vez que o público acorreu em grande. 
Durante muitos anos, o Barracão da Feira do Rossio, com os seus espectáculos de feira, conseguiu atrair grande concorrência e juntar muito público. O gosto passou a vício de tal maneira que muitos recorriam à Caixa Económica para poderem aproveitar estes dias de diversão. 
 No ano de 1893, o empresário Lozano, adquiriu a exploração do espaço e fê-lo de uma forma tão esmerada que permaneceu durante largos meses, sinal de bom acolhimento. Um jornal de 23 de Março, desse ano, transmite-nos uma pequena descrição do espaço, apresentando-o como “amplo e muito decente; a iluminação é a gás mas nota-se falta de luz, o que pode ser remediado dando mais força ao gás.” [O Povo de Aveiro, de 23.03.1893] No entanto, o comportamento do público, sobretudo do que gostava de interagir com os artistas durante a actuação dos mesmos, mereceu reparos do jornalista, que pediu a intervenção do Comissário de Polícia. 
Foi com o virar do século que este espaço conheceu sucessos de grande qualidade trazidos pela mão da Companhia Lisbonense, cuja memória perdurou durante largos anos. Sob direcção do actor Domingos, a referida Companhia alugou o espaço, em 1901, para gáudio dos aveirenses, que se queixavam de só ter uns “fantoches remendados” ou uma tourada à espanhola como divertimento. O Povo de Aveiro, de 31 de Março de 1901, lamentava que só ali – num teatro de feira – se pudesse ver o que no Teatro Aveirense nunca se via, considerando esta companhia superior a muitas das que tinham passado pela sala principal da cidade. A feira, que durava cerca de um mês, era pequena para tanto público ansioso por ver esta companhia, que se sentia na obrigação de permanecer “aos três meses em cada ano, com êxitos sucessivos, com enchentes ininterruptas, exibindo um reportório variado, em que alternavam as mágicas com as comédias, as tragédias com as operetas, os dramas com as revistas do ano”. [CERQUEIRA, 1974: 53] Os seus títulos, além de repetidos várias vezes nesse Barracão, mais tarde, seriam  imitados pelos artistas locais (anexo VI).
Na feira seguinte - Março de 1902 - voltaram para mais três meses de sucessos, conseguindo a proeza de atrair os artistas da Companhia Rosas & Brasão, também sediada, por esses dias, na cidade. É que, tanto tempo na terra, fazia com que os artistas se popularizassem, tornando-se rostos familiares a toda a gente. Quem não conhecia o actor Domingos, o Santos, a Lola, os irmãos José Vítor e Henrique Tainha, a Maricotas e mesmo Joaquim Tainha que acabou os seus dias em Aveiro? Além disso, também tiveram o privilégio de ver os primeiros passos de Ausenda de Oliveira, ao lado de seu pai, Henrique Oliveira. Não admira, pois, que a notícia do enlouquecimento da encantadora Lola, motivada pela cegueira e surdez do popular Domingos, tenha sido recebida com muita tristeza pelos fãs aveirenses, em Agosto desse mesmo ano, ou que a queda, pelo alçapão, da actriz Carlota, durante um espectáculo, os tenha deveras assustado.
Relativamente ao reportório apresentado por esta Companhia, prossegue Eduardo Cerqueira:

 [...] as peças, repostas com indecrescido agrado ano após ano, conheciam-se quase de cor. Alguns espectadores atrever-se-iam a apontar sem auxílio do texto A porteira da fábricaOs dois garotos ou As duas órfãs e poderiam contar-se aqueles que antes das cenas de culminante sentimentalismo não houvessem já sacado o lenço da algibeira para enxaguar as irreprimíveis lágrimas doloridas. Com o ouvido musical peculiar aos aveirenses, representaria uma excepção quem não reproduzisse, da entrada à última nota, a partitura dos Sinos de Corneville, da Mascote, do Processo do Rasgaou do Moleiro de Alcalá. E se alguma contrariedade da última hora impedisse o contra-regra de desempenhar a sua missão coordenadora, remover-se-ia a dificuldade sem embaraço de maior, pois entre os amadores mais assíduos não deixaria de aparecer algum que, com infalível exactidão, se encarregasse mesmo de dirigir e concatenar a movimentação sumamente intricada de algumas mágicas espectaculosas, como O castelo de fogo, a Pêra de Satanás ou O raminho de oiro[CERQUEIRA, 1974: 54]

Ainda no verão desse ano – 1910 – a Companhia Lisbonense regressou ao Rossio, para lástima da Trupe Espanhola de Zarzuela, que pouco público atraiu, vendo-se, no final, com grandes óbices para cobrir as despesas. Para surpresa de alguns, uma companhia internacional era preterida a uma de feira. Os preços praticados nos dois espaços recreativos faziam toda a diferença e eram um factor preponderante na decisão dos populares. Por tal motivo, não é de estranhar que O Democrata publicitasse a intenção de alguns aveirenses em construir na cidade um outro espaço teatral. Desta vez um Teatro-Circo, com lugares mais baratos. Contudo, o próprio jornalista tinha dúvidas na concretização do mesmo, terminando o artigo com um comentário sarcástico: “Mas haverá, sério, quem pense nisso?” [O Democrata, de 17.06.1910]

Nas primeiras décadas do século XX, ainda apareceu uma ou outra companhia itinerante, para gáudio dos imensos apreciadores deste tipo de teatro. Foi o caso da Companhia Rentini e, mais tarde, a Rafael de Oliveira. Contudo, pouco e pouco, o “Barracão do Rossio” deixou de receber espectáculos de teatro. 
No entanto, as recordações deste tipo de teatro permaneceram por largos anos no coração dos aveirenses. Em 1928, a propósito dos espectáculos O Milagre de Fátima Fim do mundo, pela Companhia de Sales Ribeiro - Alves da Silva, realizados a 9 e 10 de Novembro, lamenta-se a decadência a que o teatro chegou, sendo, de longe, inferior ao trazido por Dallot e com “uma figura aproveitável em volta da qual gira a sucata” (Democrata, 17 de Novembro de 1928).

Em 1905, uma atracção inédita na cidade convidava os populares a passarem o seu tempo na Feira: um animatógrafo.  Os curiosos eram muitos. Todos queriam ver aquelas  imagens animadas. Era no Salão-árabe que se juntavam os populares para assistirem a vistas, paisagens e monumentos do estrangeiro a preços “baratíssimos”, diz o Campeão das Províncias, de 8 de Abril de 1905. Foi com grande impressão que assistiram a coisas nunca antes vistas, caso do Martírio de Jesus Cristo, o que levou a muitas lágrimas de emoção. No ano seguinte, a curiosidade continuou, como ilustra o jornal de um clube da cidade:

O povo que vem à feira fica deveras abstracto ao contemplar tão alta invenção, dizendo que lá por suas terras não aparece coisa tão importante. Nós já tivemos ocasião de observar uma conversa, em que dois amigos diziam: - É compadre, só lhes falta falar para serem gente! [O Galito: de 1 de Abril de 1906]

Esta “alta invenção” tornar-se-á deveras marcante no desenvolvimento da vida cultural da cidade. Inicialmente, foi a curiosidade que atraiu auditórios, contudo, o hábito enraizou-se e, rapidamente os aveirenses não podiam passar sem este tipo de espectáculos, de tal maneira que, na Feira de Março de 1910, a afluência foi francamente assombrosa. De acordo com a imprensa, o espaço foi alugado por largos meses havendo, “quase todas as noites estreias de fitas, sendo algumas notáveis pela sua perfeição e nitidez”. Ainda para mais, o salão estava montado com um certo luxo, em contraste com o Teatro Aveirense, onde a falta de luz eléctrica era motivo de tristeza pois não permitia que o cenário e o guarda-roupa das companhias de “primeira ordem” brilhassem. Não admira, pois, que a comparação entre os dois espaços fosse feita, sobretudo porque a revista A viúva alegre, apresentada a 7 de Abril de 1910, pela Companhia de Ópera Cómica e Opereta, tinha ficado aquém das expectativas da direcção do Aveirense.

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