O Teatro dos Artistas Aveirenses / Teatro da Rua do Rato
O Teatro da Rua do Rato, ou Teatro da Sociedade Dramática dos Artistas Aveirenses, foi inaugurado a 11 de Maio de 1862, tal como ficou registado no Campeão das Províncias, de três dias depois:
No domingo teve lugar a inauguração do Teatro Tália desta cidade. O espectáculo não foi bem escolhido, mas, se na execução se notaram algumas imperfeições, é certo que entre os artistas alguns hão [SIC] que revelam habilidade e que é preciso aproveitar. [...]
A sala de espectáculos está bem disposta, ainda que as guarnições não estejam completas. Esperamos que os artistas concluirão a sua obra e prosseguirão no empenho do que no domingo nos deram valiosas provas. [Campeão das Províncias, 14.05.1862]
No entanto, a população teve de aguardar pacientemente alguns anos por este acto tão solene, uma vez que, desde o falecimento do sócio mais influente, mais ninguém tinha pegado na obra:
Anda-se finalmente preparando o projectado teatro da rua do Rato, afim de ali se darem algumas récitas. As obras estavam, como se sabe, paradas há muitos anos, desde que faleceu o principal influente delas, o Sr. António da Silva Paiva.
É uma sociedade composta de seis artistas que meteu ombros à empresa. A primeira récita espera-se que seja já no primeiro domingo do próximo mês de Maio.
Louvamos muito esta iniciativa, tanto mais que outros indivíduos de mais capitais que os associados tinham esmorecido diante dela; e com quanto não se façam por ora se não os reparos indispensáveis, é certo que isso é o começo para se poder tornar aquela casa um teatro, posto que abaixo do necessário, muito conveniente para uma terra que, no fim de contas, está actualmente sem nenhum outro. [O Distrito de Aveiro, 11.04.1862]
Mesmo assim, os actores tiveram de empregar todo o seu tempo na organização do espaço, pelo que, o mau desempenho acabou por ser perdoado. O jornalista Mateus de Magalhães, convida-nos a recuar até dois dias antes da inauguração:
Ninguém está parado aqui, e cada um troca o seu mister por aquele que a necessidade exige.
Vê-se um pintor transformado em carpinteiro, um alfaiate em pedreiro, e o próprio folhetim, envergonhado de se conservar quieto em presença de tanta actividade, despe a sobre-casaca e ajuda a forrar de papel pintado o tecto das galerias.
Por outra parte pinta-se o pano e estão todos apostados em combater a indolência do meu amigo Romão, indolência tão proverbial como o seu delicado talento para a pintura. [O Distrito de Aveiro, 13.05.1862]
A sociedade aveirense passou, assim, a contar com um outro espaço, desfrutando de novos programas e abrindo as portas a Companhias Nacionais. Logo no primeiro dia, contaram os “curiosos” aveirenses com a presença do actor Guimarães, que os ajudou a encenar o drama Camila ou os salteadores. Em geral, nesses dias, o público acorria em maior número fazendo com que a receita compensasse as outras sessões. Foi o que sucedeu um ano depois, aquando da visita do actor Taborda. Durante três noites “o teatro encheu-se como por magia (…); a sala transbordava; por toda a parte havia falta de lugares; a enchente era real”. [Campeão das Províncias, 16.06.1863].
Curiosamente, esta sala foi construída numa rua de grande pobreza, cujos moradores se dedicavam à execução de ofícios. Aqui residiam, essencialmente, sapateiros, alfaiates, barbeiros, lavadeiras, engomadeiras, serventes das freiras e criados dos frades dependendo, quase todos eles, da ajuda dos Conventos de São Domingos e de Santo António. O local foi baptizado, merecidamente, com o nome de Teatro dos Artistas Aveirenses pois foi à custa do seu tempo e do escasso dinheiro que possuíam que, durante alguns anos, se pôde ver teatro na cidade da ria.
Em 1865, somente dois anos após a sua abertura, sofria obras de urgência, fazendo com que os espectáculos fossem adiados.
Infelizmente, não se encontram datas concretas sobre o seu encerramento. Em 1875, ainda funcionava, tal como testemunha Marques Gomes, nas suas Memórias de Aveiro:
O único teatro que possuímos deve-se à iniciativa dos laboriosos artistas desta cidade. Situado na rua do Rato, são acanhadas as suas proporções; contudo atesta o génio e o amor da arte daqueles que, não tendo infelizmente recursos, patenteiam claramente a sua boa vontade. [Gomes, 1875: 164]
Em 1879, ainda se encontram anúncios para espectáculos nesta sala, em alguns jornais da cidade. Contudo, a 28 de Outubro de 1888, O Povo de Aveiro, ao anunciar a representação da peça A probidade refere-se a ela como “o excelente drama” que “há mais de vinte anos foi levado à cena, com geral agrado, também por distintos amadores desta cidade, hoje já quase todos falecidos, no extinto teatro dos Artistas, à rua do Rato”.
Por seu lado, José Tavares, em 1961, escreve que a casa “ainda existe mas transformada em habitação particular, sem quaisquer indícios do fim para que foi construída ou adaptada”. [TAVARES, 1961: 314]
No final do século XX, toda a zona foi alterada por completo, tendo-se destruído alguns edifícios para que surgisse uma nova avenida.

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