Políticas de Acolhimento
Ao longo dos mais de 125 anos de vida do Teatro Aveirense muitas foram as companhias que passaram por este admirável palco (anexo V). Para isso contribuiu a boa localização da cidade, a meio caminho entre o Porto e Coimbra.
De um modo geral, as companhias contactavam a Direcção do Teatro Aveirense a fim de visitarem a cidade aquando das suas deslocações pela província. No entanto, nem sempre a sua vinda era automaticamente aceite: a Direcção do Teatro sugeria, muitas vezes, que as companhias se deslocassem primeiro ao Porto e, só depois de se ler a crítica nos jornais do Norte, é que se assinava o contrato. Nem mesmo as companhias nacionais “escapavam” a este teste. Por exemplo, em Agosto de 1960, Amélia Rey Colaço, da Companhia de Teatro D. Maria II, oferece-se para actuar “no vosso lindo teatro”, no dia 5 ou 6 de Novembro, antes da ida ao Porto. O espectáculo é aceite, mas terá de ser ao contrário, pois, por experiência, aproveitava-se “o reclame e critica dos jornais do Norte, que aqui são bastante lidos, bem como o ser já um pouco fora da época balnear, o que desfalca um pouco as reservas monetárias dos frequentadores”, pode ler-se na diversa correspondência trocada então[1].
Também aconteceu ser a Direcção a interessada em determinado espectáculo, não se coibindo de recorrer a vários estratagemas para conseguir contratá-lo. Tomemos dois exemplos.
Em 1952, para que Vasco Morgado viesse ao Aveirense e não à concorrência, a Direcção, pela mão do senhor António Luís Morais Cunha, contactou Amadeu do Vale para que este intercedesse junto de Vasco Morgado. O contrato era aliciante: 70% para o Empresário, 30 % para o Teatro Aveirense. As datas foram deixadas ao critério da Grande Companhia de Revistas do Teatro Apolo (neste caso representada pelo senhor Vasco Morgado), sugerindo-se o período pós-feira e depois de 8 de Maio, por causa das festas da cidade. Escolheram-se os dias 16 e 17 de Maio e as peças Enquanto houver Santo António e Aguenta-te Zé.
Alguns anos depois, uma situação análoga é utilizada para se contratar a Companhia do Teatro Avenida, de Lisboa. Desta vez o intermediário foi Ribeirinho, visto ser conhecedor das boas condições do palco e do seu apetrechamento, “sendo um dos melhores da província, além do pessoal competente e das boas condições acústicas[2]”; conscientes de que a atitude era pouco correcta, terminam a carta dizendo “desculpe a maçada, mas isto é assim mesmo, quem não chora não mama...[3]”. Apesar disso, e com medo de que Ribeirinho não fosse idóneo o suficiente, pedem também a cooperação de Vasco Santana que lhes responde, a 31 de Março de 1956, dizendo já ter falado com Vasco Morgado “pois, como sabem, sou o maior admirador do vosso teatro e dos seus ilustres directores”. No entanto, Por um fio, não despertou muita curiosidade, uma vez que só se venderam cerca de 320 bilhetes. Como se tinha feito um negócio na base dos 35% - 65%, os cerca de 5.875$50 foram divididos, tendo o empresário ficado com 3.819$08 e o Teatro Aveirense com 2.056$42.
Desde a sua inauguração que o saldo proveniente de espectáculos teatrais nem sempre dava para fazer face às despesas. Antes da adaptação do edifício para cinema, será sempre com alguma dificuldade que se sobrevive; só mesmo os bailes davam lucro. Contudo, esse lucro devia ser muito relativo, uma vez que a despesa, acarretada pelo “desmontar” da plateia e pelas (regulares) sessões de pancadaria que, inevitavelmente, se seguiam, era também elevada.
Tomemos como exemplo o ano de 1901[4], que está bem especificado no “Diário Auxiliar de 1901-1942”:
HAVER
|
DEVE
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1 de Abril
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Baile
|
9$780
|
4$780
|
30 de Abril
|
Tuna de estudantes
Récita
|
63$045
|
15$320
17$245
|
30 de Abril
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Cª D. Maria II
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233$760
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353$850
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19 de Maio
|
Cª D. Amélia
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500$780
|
511$000
|
No geral, nesse ano, ficou registado que se recebeu 991$657 e que houve de despesa 1.029$905, sendo, por isso, o saldo negativo de 38$248. Porém, havia que contar com uma dívida de 28$000.
Por exemplo, em 1902, a Companhia D. Amélia rendeu 500$780, mas deu de despesa 504$320. Também em 1905 houve um grande défice com a Companhia de Zarzuela (105$850) e, mais uma vez, com a Companhia D. Amélia (32$915). Depois dessa data, e durante muitos anos, as contas passaram a ser gerais, não se especificando o tipo de espectáculo. Além disso, a forma como foram registadas, variava muito consoante as Direcções. Em alguns anos, não foram anotados quaisquer dados, noutros só foram os relativos a obras ou a sessões de cinema, apesar de ser possível saber – pela imprensa ou pela existência de programas - que houve espectáculos teatrais. No entanto, a partir de 1946, e de acordo com a lei em vigor, são feitos diversos mapas demonstrativos da exploração do espaço e, posteriormente, enviados para o Instituto Nacional de Estatística. No primeiro ano, os dados referem-se a todos os tipos de espectáculos, sendo, a partir de 1947, mais detalhados. Contudo, alguns espectáculos foram omitidos uma vez que os registados - através dos periódicos e dos programas - são em maior número do que os enviados para o INE. Por exemplo, em 1944 realizaram-se 185 sessões de cinema e 8 de outro tipo; no entanto, e como se pode ver no anexo V (registos de todos os espectáculos), houve mais de onze espectáculos (entre dramas, comédias e revistas), não contando com os amadores. E mesmo na altura em que fechou para obras - 1948/49 – há programas de espectáculos e o registo estatístico é vago e pouco claro.
Mesmo assim, havia companhias que não se deviam lamentar dos aveirenses. Uma das mais bem sucedidas foi a Companhia Rafael de Oliveira que, durante muitos anos fazia a Aveiro a sua primeira “consulta[5]” para espectáculos, conseguindo, em 1957/58 ficar cerca de 3 meses, actuando duas vezes por semana e com muito agrado do público. Também Giuseppe Bastos, a 15 de Julho de 1960, escreveu uma carta à Direcção agradecendo o acolhimento prestado e dizendo que só aqui e na Figueira da Foz é que conseguiu “defender as despesas. Coimbra que é terra com que se conta sempre, desta vez, também falhou”.
Por tudo isto, havia que recorrer a diversos estratagemas para recuperar de tal má sorte. No século XIX, além da sala, alugava-se também o tapete, cenários e os adereços. Mais tarde, advirão lucros com a publicidade. O restaurante – também chamado botequim - foi sempre arrendado, bem como o salão pequeno. Este, durante largos anos, esteve por conta do Grémio Artístico e, posteriormente, do Recreio Artístico. Também foi utilizado para aulas dos cursos de Sargentos. Mesmo as janelas do edifício trouxeram um lucro adicional, aquando da inauguração da estátua de José Estêvão, com o seu aluguer a pessoas abastadas da cidade, - Jerónimo Pereira Campos, Miguel dos Santos Gamelas e Guilherme A. Taveira – num saldo de 7$000. Porém, os trabalhos de embelezamento para essa festa cifraram-se na ordem dos 8$000, entre caiação da frente (3$580) e iluminação e embandeiramento (4$520). Em 1914 também alugavam as cadeiras e as estantes para exéquias e, nos anos vinte, guardavam-se carros no pátio do teatro aveirense, para quem fosse assistir aos espectáculos ou participar nos bailes.
Só o cinema é que trará um saldo francamente positivo. A primeira vez que se fala em produto devido a sessões cinematográficas é em 1907, apesar de as obras para adaptação da sala só se terem realizado em 1912. Nesse primeiro ano, houve um lucro de 8$770. Os ganhos, quase sempre, superaram o investimento, como se pode ler numa missiva de 18 de Outubro de 1954, a um elemento da Direcção - Egas Salgueiro - que se encontrava nas termas, informando-o da receita de dois dias de espectáculos com a Companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro, nos dias 16 e 17 de Outubro. Diz-se que a casa rendeu “cerca de 29 contos. Melhor foi o filme do dia 14, que esgotou a lotação e só tinha custado 800$00”. Se analisarmos os dados estatísticos de 1954 poderemos verificar que, nos quatro trimestres, houve 188 sessões de cinema, com 81.355 bilhetes vendidos, e, apenas, 16 espectáculos de teatro (incluindo ópera, palhaços, teatro declamado e amador), com 10.142 entradas. Não é de admirar que, na hora de gerir o pouco dinheiro disponível, se investisse no que dava lucro.
Se quisermos comparar, em termos de valor monetário, as receitas geridas por estes espectáculos, podemos examinar o ano de 1957, que até foi um ano excepcional, uma vez que a Companhia Rafael de Oliveira permaneceu dois meses no Aveirense, dando, sozinha, quinze espectáculos.
Nº de espectáculos
|
Nº de espectadores
|
Receitas
| |
CINEMA
|
220
|
88.198
|
689.666$50
|
TEATRO
|
21
|
8.862
|
84.826$50
|
Para tentarmos compreender a causa desta desproporção, tomemos, como exemplo, o preço dos bilhetes para seis diferentes espectáculos desse ano. O primeiro, refere-se a uma récita de homenagem a um ilustre professor aveirense, com amadores; o segundo, à opereta A fonte do amor, pela Companhia de Opereta Portuguesa; o terceiro, a duas comédias, pela principal e mais conhecida companhia nacional – a Companhia de Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro, com Peraltas e Sécias (dia 18.05)) e A muralha (dia 19.05); o quarto, a um espectáculo de beneficência, a favor da obra do Padre Miguel, pelo Grupo Etnográfico de Espinho e Amadores, a peça em 1 acto Coroa de rosas e bailados; o quinto, menciona os preços dos espectáculos da Companhia de Rafael de Oliveira/Teatro Desmontável; o último, são preços de uma sessão de cinema.
Alunos e ex-alunos Amadores
(31 de Jan.)[6]
|
Cª. de Opereta Portuguesa
(6 de Fev.)
|
Cª. Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro /D. Maria II
(18 e 19 de Maio)
|
Grupo Coreográfico de Espinho
(31 de Maio)
|
Cª. Rafael de Oliveira
(Nov. e Dez.)[7]
|
A Justiça de Jessie James, (24 de Nov.)
| |
Frisas
(5 lugares)
|
100$00
|
200$00
|
130$00
|
100$00
|
75$00
|
-----
|
Camarotes
(5 lugares)
|
75$00
|
200$00
|
120$00
|
75$00
|
70$00
|
-----
|
Fauteuils de Orquestra
|
22$50
|
45$00
|
35$00
|
22$50
|
17$50
|
-----
|
Fauteuils simples
|
17$50
|
40$00
|
30$00
|
17$50
|
15$00
|
------
|
Cadeiras
|
12$50
|
35$00
|
25$00
|
12$50
|
12$50
|
------
|
1º Balcão (filas A, B e C)
|
22$50
|
45$00
|
35$00
|
22$50
|
17$50
|
12$50
|
1º Balcão (filas D, E e F)
|
15$00
|
40$00
|
30$00
|
15$00
|
15$00
|
10$00
|
1º Balcão restantes filas
|
10$00
|
35$00
|
25$00
|
10$00
|
12$50
|
10$00
|
2º Balcão (filas A, B e L)
|
7$50
|
20$00
|
15$00
|
7$50
|
7$50
|
6$00 (só a A)
|
2º Balcão restantes filas
|
5$00
|
15$00
|
10$00
|
5$00
|
5$00
|
5$00
|
Os ingressos para o cinema são os mais acessíveis, como era de esperar. Curiosamente, os espectáculos dos amadores são relativamente elevados; no entanto, a procura tem a ver com o facto de os actores serem conhecidos e com a razão do espectáculo em si. No geral, os mais baratos são os da companhia itinerante; daí terem também muita procura. Os mais caros são as operetas, talvez porque envolvam mais participantes, acrescidas de despesa com orquestra.
Todavia, se em determinados momentos o cinema atrai populações, noutros afasta--as, obrigando, pontualmente, a Direcção a fechar a casa. Foi o que aconteceu, por exemplo, em 1924, pois nem o cinema serviu de defeso, tendo-se suspendido as suas sessões. O mesmo sucedeu em 1925. O porquê da falta de público prendia-se com o facto de estar a decorrer a Feira de Março. Também nos anos cinquenta, quando a cidade contava já com duas salas de exibição de filmes, as duas Direcções tiveram de se entender e passar a organizar espectáculos alternados, uma vez que a população não conseguia atender a tanta oferta. Curiosamente, em 1959, também a recém-nascida televisão fazia alguma concorrência, como se lê numa carta ao Presidente da União de Grémios de Espectáculos[8]: “A manutenção deste cinema está a tornar-se dificílima... agora agravada com a desleal concorrência da televisão.”
[1] Grande parte da correspondência trocada entre as diferentes Direcções e as Companhias e/ou empresários, encontra-se dispersa em várias pastas, no arquivo do Teatro Aveirense, sem qualquer tratamento.
[2] 8 de Agosto de 1956, carta a Ribeirinho
[4] De referir que as datas registadas nem sempre coincidem com as dos programas. Só se apresentam aqui os dados dos espectáculos mais significativos do ano.
[5] 7 de Dezembro de 1959, carta de Rafael de Oliveira.
[6] Sarau de homenagem ao Dr. José Pereira Tavares, com a presença do Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra, que representaram três textos vicentinos (Monólogo do vaqueiro, Súplica da Cananeia e Todo-o-mundo e ninguém) e de Amadores aveirenses (Coroa de rosas e O tesoiro).
[7] Preços iguais em todos os espectáculos de Novembro e Dezembro.
[8] Nesta carta, apelava-se à alteração da tarifa de energia. Assim, em vez da correspondente às casas comerciais (tarifa III), pedia-se que fosse aplicada a da indústria (tarifa V).

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