Os reportórios
De um modo geral os gostos dos aveirenses, relativamente aos seus amadores, inclinavam-se mais para a revista do que para o teatro declamado. Esta conclusão é facilmente sustentada tendo em conta o enorme sucesso que as revistas locais faziam e a menor adesão a espectáculos de outro género, como vimos anteriormente.
Até 1884, os amadores aveirenses seguiam, de certa forma, a tendência nacional e não fugiam muito aos dramas clássicos. Deus e o destino, Os trapeiros de Lisboa ou até Carlos III ou a inquisição de Espanha são títulos de dramas representados pelos artistas locais. Em geral, a sua representação era intercalada com algumas comédias em um acto, do tipo: Morrer para ter dinheiro, Três noivos distintos e um só verdadeiro, Casar para morrer, Ciúmes, amor e cozinha, etc. Nesse ano, talvez motivados pela presença de três actrizes do Porto – entre elas a aveirense Gasparinho – aventuraram-se, pela primeira vez, num género diferente: a opereta. A estreia não foi nada auspiciosa, mas a benevolência do público perdoou-lhes:
São dignos de louvar os iniciadores daquela festa, porque à custa de muito trabalho propuseram ser úteis. [...]
Se os curiosos nos permitem conselho, diremos entre parêntesis, muito em segredo, em boa amizade e muito às escuras que as operetas quando entoadas sem vozes têm o condão de se parecerem com o canto-chão, que é uma coisa insípida, que faz dormir nas igrejas. [O Povo de Aveiro, de 1.06.1884]
Os últimos anos desse século terminam com a representação praticamente só de dramas e de comédias em um acto. Foram grande sucesso os dramas Perdão, de Firmino de Vilhena, e O veterano da liberdade, de Baptista Dinis, com pedido de reposições. Alguns dos dramas que tinham sido um sucesso nos teatros já extintos, foram recuperados, caso da Probidade, do aveirense César de Lacerda que, a par de Firmino de Vilhena, não tinha mãos a medir com tanta encomenda.
Por essa altura, as companhias de fora também apresentavam essencialmente dramas, tendência que se manteve ao longo dos primeiros anos do século XX. Quem quebrava a monotonia destas récitas eram as companhias espanholas com as suas inúmeras zarzuelas. Não é, pois, de admirar que, pela sua alegria, cor e diferença, estes fossem espectáculos cativantes, muito ao gosto popular. Daí advém a tentativa de imitação por parte dos aveirenses. Os Galitos foram os primeiros a fazê-lo e, contrariamente ao que dizia Sousa Bastos, que estas não seriam traduzíveis [cf. BASTOS, 1908: 157], o público de Aveiro acolheu calorosamente esta novidade. As primeiras traduções surgem com A marcha da Cádis e A pastora, a partir de Marcha de Cadiz, e La madre del cordero, respectivamente. Com a ajuda de vários tradutores, em breve os amadores aveirenses contavam com um reportório de fazer inveja a alguns profissionais: Terno de clarins, O talismã, O neófito, O caraça e Alma de Deus.
Entre os aveirenses não havia só cidadãos com jeito para a representação. Ao longo destes anos, nasceram também escritores que, com mais ou menos regularidade, colaboravam com os seus cidadãos. Nomes como Fernando de Vilhena (John-Bull, Homem-Mulher ou Mulher-Homem? e A vingança d’um pobre), Firmino de Vilhena (Perdão, Período de Sombras, A Fábia em Aveiro, No farol, Estio Festivo, Amores no Campo, Noivos, Mulheres da Cruz Vermelha, Renova de Catimbau), José Pereira Tavares (Tríade de Pangloss e diversos textos para os alunos do Liceu), Alberto Costa (Frei Gil), Francisco Palha (A morte de Catimbau), Samuel Maia (D. Dinis), Aurélio Costa (Aveiro... Terra de encantos), António Máximo e Manuel Moreira (Alhos e bogalhos), Luís Couceiro (A caldeirada), José Meireles (Ao cantar do galo) António José Flamengo (Molho de escabeche) escreveram a História do teatro em Aveiro.
Por seu lado, os amadores estavam cientes do gosto do público aveirense e, desde aí, não mais deixaram de associar poesia, música, dança e sketches – de preferência com sátira local – para obterem algum reconhecimento[1]. Idêntico sucesso contam os académicos, que tantas vezes pisaram as tábuas do aveirense, com as revistas dedicadas a Pangloss, nomeadamente a última, representada em 1956, com casa superlotada e muita gente à porta, esperançosa de conseguir um lugar na assistência.
[1] Mesmo hoje em dia, quando se pergunta a algum idoso nomes de espectáculos do Teatro Aveirense, todos eles citam as revistas dos Galitos como as mais belas.

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