Os reportórios
A maior parte das companhias que visitavam Aveiro vinha em itinerância, após o fim da época dos teatros de Lisboa. Por tal motivo nunca apresentavam estreias, mas antes espectáculos que já tinham em carteira.
Caso a companhia viesse do sul do país, era aconselhada a ir primeiro ao Porto, para que os cronistas residentes fizessem a crítica ao espectáculo e, só depois, conseguissem angariar clientes em Aveiro. Por vezes, o negócio dependia mesmo do (in)sucesso no Porto. Foi o que aconteceu a Vasco Morgado, com quem não chegaram a acordo relativamente a Eles, elas ... e os meninos, em Setembro de 1959. No entanto, algumas vezes, certos nomes bastavam para ser atracção suficiente, não precisando de muita propaganda.
Os reportórios eram muito variados, havendo, contudo, pontualmente, uma predilecção por géneros, consoante a moda e o gosto nacional. À semelhança do que se passava no resto do país, também o público aveirense seguia a tendência dos outros públicos. Assim, até ao final do século XIX, e desde que foi inaugurado, a preferência era por dramas clássicos. Os espectáculos eram normalmente compostos de um drama – que ocupava a maior parte do serão – seguindo-se uma comédia em um acto. Entre 1881 e 1889, representaram-se cerca de vinte e cinco dramas, várias pequenas comédias e inúmeras zarzuelas.
Com a viragem do século, os espectáculos comoventes serão, tendencialmente, trocados por espectáculos mais “chistosos” e divertidos. A vida no país não era das melhores e muitas eram as casas que viam os seus homens partir para a guerra. O teatro servia de entretenimento, meio de distracção, “um contrapeso à angústia diária da rua, [onde] o público revela tendência para favorecer a sátira ao quotidiano em revistas e comédias de costumes, em detrimento do teatro sério que tanto consenso recolhera na transição do século.” [VIEIRA, 1999: 54]. Além do mais, as novas correntes artísticas que pululavam um pouco por toda a Europa, também chegavam a Aveiro. Como dirá Querubim Vale Guimarães, presumivelmente o primeiro crítico teatral aveirense, em 1909:
De todos os géneros de arte, o teatro é a nosso ver, o mais poderoso agente de emoção e, como tal, deve ser igualmente um poderoso meio de equilíbrio e não um elemento perturbador, na educação intelectual, moral e afectiva do povo.
Assim, é que não se tolera hoje o velho melodrama, nos moldes cediços do primitivo classicismo, em que da plateia se apostrofava o tirano ou saíam, fungando como Madalenas, os espectáculos que não podiam nem sabiam resistir ao trágico epílogo dum romance de capa e espada.
[...] O palco é um pequeno trecho do meio em que agimos, em que lutamos, sem personagens de convenção, ou efeitos cómicos que firam a imaginação, apenas, ou deslumbrem os sentidos.
Exigimos para personagens os tipos vulgares, comuns, reais, que encontremos todos os dias, hora a hora, instante a instante, com as quais tratamos, no labutar constante das nossas relações sociais. [Beira-mar, de 19.5.1909]
Estas exigências prendem-se com o prosseguimento das tendências iniciadas em França, no final do século XIX, ligadas ao Naturalismo. A opinião de Querubim Guimarães abraça a do público: em vez dos “dramalhões” e dos romances de capa e espada, pretende-se antes que o palco seja uma reprodução fiel da realidade e que esta não seja escamoteada. Tal como ele diz “é um outro espírito social da época e mudaram também por completo os cambiantes da vida humana” [ibidem]. Anseia-se por cenários, objectos e personagens o mais reais possíveis, como se houvesse uma “quarta parede” [VASCONCELOS, 2001: 137] a separar o público do palco e toda a encenação não passasse de uma “tranche de vie, uma fatia da vida de cada um” [ibidem]. Quem sabe, não seja por este motivo, que os actores conhecidos, os que se viam todos os dias na rua, à porta de casa ou na sua labuta diária, fossem, por isso, tão bem aceites em palco. Como se estivessem a mostrar às suas audiências, a sua própria vida.
De um modo geral, o século XX foi, no geral, dominado por uma coexistência de estilos que variou entre as comédias, as revistas populares e o teatro declamado. Em 1925, numa carta ao teatro Apolo, escreve-se que o género mais apreciado é a opereta. Daí que não seja de surpreender que as companhias locais tenham optado por, quase sempre, encenarem revistas locais ou operetas, mesmo sem grandes dotes vocais, mas indo ao encontro das expectativas dos públicos. À medida que os anos passavam, a revista tornava-se cada vez mais popular, apesar de nem toda a gente acolher de bom grado este género:
Casa cheia, a de quinta-feira. Estava tão cheia que os espectadores... não puderam movimentar os braços para aplaudir... O compacto aglomerado do público parecia um bloco de gelo! [...] Aveiro é Aveiro: come de bom grado as apetitosas tripas; mas dificilmente traga géneros avariados - ainda que o género seja teatro ligeiro... [Litoral, 10.12.1955, a propósito das revistas Ó Zé aperta ao laço e O Porto é o Porto]
Em contrapartida, o teatro moderno, oferecido pelas companhias de teatro experimental que, a partir da década de cinquenta surge um pouco por todo o país, terá dificuldade em conseguir o seu público. Como se dizia no Litoral, a 17 de Outubro de 1954: “[...] Na generalidade dos casos, o cinema e o teatro, se sobem de qualidade, baixam de cotação na preferência das multidões”.
Em 1968, nas páginas do Litoral, um dos elementos do CETA (Círculo Experimental de Teatro de Aveiro), lamentava-se pelo facto de o Teatro Experimental do Porto e o Teatro Experimental de Cascais não actuarem em Aveiro por ausência de público interessado.

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