Os Grupos/Companhias locais

Conforme referido no capítulo dois, os aveirenses sempre tiveram inclinação para as artes dramáticas. Por este motivo, a edificação dos espaços teatrais existentes em Aveiro, e aqui referidos – Teatro São João Baptista, Teatro dos Artistas Aveirenses e Teatro Aveirense - , foram motivados por iniciativas particulares, em virtude da necessidade que sentiam de concretizar essa paixão. É natural, por isso, que para além do acolhimento a companhias em itinerância, houvesse grupos organizados para subirem ao palco e mostrarem os seus dotes. 
O periódico mais antigo consultado data de 1856, o mesmo ano em que os artistas inauguraram o “Teatrinho” São João Baptista, na casa do senhor  João da Silva, à Fábrica da Loiça. O primeiro espectáculo de “curiosos” ocorreu no dia 24 de Setembro desse ano, sendo todos “principiantes e jovens” [Campeão do Vouga, de 24.09.1856]. Em Dezembro, já se anunciam como “Sociedade Dramática” [Campeão do Vouga, de 4.12.1856], apregoando o espectáculo do dia 14 como único, uma vez que tinham conseguido autorização para que as mulheres pudessem representar. Seria a primeira vez que “três jovens do sexo feminino desta cidade” subiam ao palco, o que fazia com que a récita fosse muito concorrida. 
Em 1860, o Campeão das Províncias, anuncia algumas récitas da Sociedade Camões, dizendo que é “composta de pessoas que por vezes têm pisado as tábuas do teatro Aveirense com merecidos aplausos” [Campeão das Províncias, de 16.05.1860].
Com a inauguração do Teatro dos Artistas Aveirenses, em 1862, a população começa a pedir que estes jovens subam mais vezes ao palco, mostrando o que valem:

Convém formar uma companhia mais regular, de que devem fazer parte todos aqueles cujos dotes os chamarem ao palco, dando récitas amiúdo, porque a concorrência de domingo prova que o público aveirense é amante do teatro, e deseja proteger os laboriosos e beneficentes artistas em tão proveitosos certames. Será bom chamar igualmente à cena algumas das actrizes que debutaram no teatrinho de S. João, pois o público gosta de vê-las e aplaudi-las. [Campeão das Províncias, de 14.05.1862]


Outra companhia, que acolheu muito bem as ovações dos seus conterrâneos, foi a Companhia Académico-Dramática que, por volta de 1879, animou vários serões no Teatro da Rua do Rato. Durante várias noites, do mês de Janeiro, apresentaram o drama em quatro actos O anjo da caridade ou as inundações em Portugal, um original do aveirense Fernando de Vilhena. Ainda representaram mais algumas vezes, mas poucos são os dados acerca da mesma.

A partir de 1881, com modernas instalações, começaram a formar-se novos grupos que, devido à sua situação de “curiosos”, eram mais poupados nos reparos dos periódicos do que os profissionais. Com mais ou menos jeito para a arte, lá iam animando os serões de Aveiro. Com sorte, lançavam-lhes bouquets e pombas ou eram cobertos de flores, não havendo registo de terem sido “pateados”. Aliás, os maiores êxitos do Teatro Aveirense ocorreram em espectáculos de amadores. Talvez por serem da “terra” e por serem conhecidas as suas origens e profissões, as críticas eram menos mordazes, sendo, muitas vezes, preferidos a outras companhias famosas. Contudo, não é esta a opinião de um periodista do Campeão das Províncias, que, a 21 de Julho de 1886, a propósito da  criação da Sociedade Serões Dramáticos, critica o facto de nem sempre ser assim e de terem de ser os de fora a “dar-nos lições de patriotismo e ensinar-nos que o que é nosso também vale mais do que o que exportamos das outras cidades ou lá vamos aplaudir e admirar”. E vai ainda mais longe:

Aveiro tem sido fértil em talentos e aptidões artísticas que, na sua maior parte, se esfolam neste apertado estado em que vivemos. Podíamos ter ido mais longe, conquistando muitos louros, se a gélida indiferença de todos nós não deixasse murchar em flor muitas esperanças que aí têm desabrochado e o mais das vezes sem cultivo. Parece que tudo o que é nosso é acanhado e mau e, por isso, retraímo-nos regateando-lhes os nossos aplausos. [...] [Campeão das Províncias, 21.07.1886]


Sobre a companhia, auspicia-lhe as maiores felicidades. A apresentação do drama Perdão - um original de Firmino de Vilhena - , contou com um desempenho “magistral [...] principalmente quando, como agora, não se faz profissão da arte e pela primeira vez se pisa a cena, como sucede com a maior parte dos intérpretes [...]”. [ibidem]

          No entanto, a opinião dominante é que os da terra eram superiores aos forasteiros. Por exemplo, em 1908, durante as festas de Carnaval, culpou-se a companhia que veio de fora, “cujo desempenho quase se tornou intolerável!” [Distrito de Aveiro, de 5.03.1908], chegando ao ponto de este periódico aconselhar a que, na próxima vez, se procurem soluções “em casa”. E assim vai ser, durante muito tempo. 
       Em 1925, escreve o Democrata, no seguimento de vários sucessos do Grupo de Opereta Amadores Aveirenses, dois deles no Teatro Circo de Braga, com casa esgotada:

Noutros tempos as companhias de teatro tinham artistas e os amadores eram amadores.
Hoje, ao invés, as representações de companhias parecem de amadores e as de amadores, como destes, são feitas por verdadeiros artistas. [O Democrática, 20.06.1925]

Mesmo os estudantes do liceu, tinham tal fama que os seus saraus eram identicamente  concorridos:

Na sexta-feira da última semana, com o “Aveirense” literalmente cheio de espectadores interessados, os alunos do 7º ano deram a sua récita de despedida. [Litoral, 14.05.1955]

Casa repleta, superlotada. À porta ficaram ainda centenas de pessoas que não conseguiram bilhetes. [Litoral, 9.02.1957]

Surpreendentemente, o Teatro Aveirense nunca teve uma companhia residente, ao contrário do que tinha acontecido com os velhos teatrinhos, compostos por amadores. O espaço era, pois, alugado por vários grupos amadores, que faziam diversos tipos de saraus, através dos quais se exibiam à cidade. O fim era apenas lúdico ou, pontualmente, o de angariar fundos através de espectáculos de caridade. 

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