Motivações para a construção de um Teatro

Como vimos, a cidade nunca dispôs de um espaço condigno para receber os artistas nacionais que tanto furor faziam noutros palcos do país. Por isso, sonhava-se, há muito, com um teatro que colmatasse as carências sentidas não só pelos artistas – locais e nacionais - como pelos cidadãos em geral. E as diligências para tal até começaram cedo. Pedro Augusto Rebocho Freire de Andrade e Albuquerque, Presidente da Câmara, compra, para tal efeito, em 1854, um terreno, fazendo o lançamento da primeira pedra, a 16 de Setembro de 1855 (anexo I, fig. 4).
Não foi, contudo, uma decisão pacífica. Muitos consideravam que o dinheiro era mal empregue e melhor seria que se utilizasse num matadouro público:

Já vimos a planta do teatro para o qual o Governo concedeu uma propriedade de casas pertencentes à fazenda nacional. Se a planta for fielmente executada, o edifício corresponderá às exigências dos mais escrupulosos, porque terá suficiente capacidade para o público de Aveiro, ainda que afluam espectadores dos pontos mais distantes do distrito.
Felicitamos o digno director das obras públicas do distrito que, segundo nos consta, se havia encarregado daquele trabalho que, no nosso entender, achamos perfeito.
Resta que a Câmara coadjuve com todas as forças ao seu alcance esse importante melhoramento local, que o público reclama e que, mau grado nosso, temos visto pospor.
Esperamos que a Câmara, compenetrando-se dos seus deveres, não atenda as insinuações de alguns bonzos que se têm esforçado porque os fundos votados para o teatro sejam empregados na construção de um matadouro público. Esta aplicação importa uma distracção de fundos, para que a câmara não está autorizada, porque há uma lei especial que ordena que o dinheiro, produto da venda das casas da Rua dos Mercadores, seja empregado na compra ou construção de um edifício em que se possa fazer um teatro público. [Campeão do Vouga, 7.06.1857]

Rapidamente se iniciam as obras e, em Julho, estavam tão adiantadas que já se aventava [Campeão das Províncias, 16.07.1857] que dentro de um ano estariam concluídas. Contudo, não foi isso que se passou. Um ano depois lia-se no Campeão do Vouga:

Custa-nos ver o modo porque a Câmara Municipal tem deixado ao abandono a construção do teatro novo, deixando passar a mais própria [SIC] sem mandar levantar as paredes do edifício destinado aquele fim. Seria bom que a Câmara providenciasse neste sentido ou, no caso contrário, mandasse despejar a praça municipal e ruas confinantes dos materiais ali aglomerados. [Campeão do Vouga, 3.08.1858]

E assim ficou durante muitos anos. Em 1865, a propósito da vinda a Aveiro de Santos e Emília Letroublon, no teatro dos Artistas, lamentava-se um articulista do Distrito de Aveiro do seguinte:

[...] Em Aveiro não se dá um proporcional cuidado para este divertimento (teatro) o mais inocente e instrutivo, e se não fossem meia dúzia de artistas desta terra, nem casa teríamos para podermos apreciar o talento artístico dos senhores Santos e Emília.
Há sete anos que se obteve do Governo um óptimo terreno para a edificação de um teatro junto ao liceu desta cidade, na Praça Municipal. O Presidente da Câmara então começou essa edificação por meio de acções passadas entre os conterrâneos e a obra seguia com actividade quando o senhor Manuel Firmino tomou a direcção das cousas municipais; desde esse momento não só as obras foram abandonadas, mas até se gastaram na Malhada os materiais destinados ao teatro.
Fez isto o senhor Manuel Firmino não obstante no seu manifesto de 25 de Novembro de 1863 chamar ao teatro o “complemento do jardim”! São francas e sinceras as promessas do actual presidente da Câmara. Por aqui se pode avaliar o resto.” [Distrito de Aveiro, 22.07.1865]

Apesar desta forte crítica, em 1875, estava tudo na mesma, ou pior, como revela Marques Gomes:

Pouco, infelizmente, se nos oferece dizer sobre este (teatro) [SIC] assunto. Em quanto nas demais terras do país as artes prosperam e avançam na senda auspiciosa do progresso, nós vivemos no estacionamento. Com pesar o dizemos: não possuímos um teatro digno de receber os estranhos que visitam esta cidade. [...]
Abriram-se os alicerces; lançaram-se as primeiras pedras com indescritível entusiasmo; subiram as paredes a uma certa altura; muitos filhos de Aveiro ali foram pagar o óbolo do trabalho, enquanto que outros concorreram com as quantias concernentes aos seus haveres. Mas Bento de Magalhães morreu, legando-nos como recordação da sua honrosa e grande iniciativa, esse montão de ruínas, habitação de bichos, monturo [SIC] de silvado, que aí desafiam o escárnio do viandante no centro da cidade [...]. [GOMES, 1857: 163]
           
Os anos vão passando até que, em 1878, um grupo de homens influentes da cidade organiza a “Sociedade Construtora e Administrativa do Teatro Aveirense”.  Será graças a esta Sociedade que, com um novo impulso, se vai dar continuidade às obras há muito paradas. Em Março, de 1879, reúne-se em casa de Sebastião de Carvalho e Lima (que na altura presidia à Câmara Municipal), e ali mesmo forma-se uma Comissão Directiva, encarregada de promover a subscrição de duas mil acções – a cinco mil réis cada uma – para se angariarem os fundos necessários à conclusão das obras (dez contos de réis). O seu móbil não era comercial mas recreativo. É que as vilas limítrofes – Ovar, Feira, Arouca, Oliveira de Azeméis, Anadia e Ílhavo – possuíam os seus teatros e era lamentável que a capital de Distrito não possuísse um espaço digno da terra. Para tal, foi pela rua e, de porta em porta, convenceu a população a adquirir acções, de modo a que todos pudessem colaborar, apelando, ao mesmo tempo, ao sentido patriótico de cada habitante. E foi de tal modo bem sucedida a campanha que, num só dia, em duas horas, conseguiu a assinatura de 271 acções, na importância de 1.355$000 réis. A própria Câmara tomou para si 720, num total de 3.600$000 réis. E foi assim que as obras se concluíram. 
Finalmente, ao fim de vinte e oito anos, no dia 5 de Março de 1881, a companhia do Teatro D. Maria II, de Lisboa, inaugura aquela que viria a ser a principal casa de espectáculos da cidade (Anexo II, documento 1). Sabe-se que a companhia veio para quatro récitas – 5 a 8 de Março – apresentando as comédias A mantilha de rendaAmor por conquistaOs dois sargentos e  A estrangeira.

A revista Ocidente apresenta o Teatro à nação:

[...] Tem 300 lugares de plateia entre cadeiras, superior e geral, 16 frisas, 10 camarotes de 1ª ordem, 5 de segunda, podendo comportar ao todo 700 espectadores.
O palco tem todas as acomodações necessárias a um teatro e a vastidão precisa para se poder dar qualquer peça de espectáculo.
O pano de boca e o cenário foram desenhados e pintados pelos cenógrafos de Lisboa, Rocha e Barros. A decoração das salas no estilo rafaelesco foi executada pelos mesmos artistas segundo o desenho do Sr. engenheiro Araújo. A iluminação do teatro é feita a petróleo por não haver ainda gás em Aveiro. O teatro tem dois belos salões e um botequim. [O OCIDENTE, 1881: 131]

Dá-se, assim, início a uma nova época teatral e cultural, abrindo-se, não só, as portas a companhias nacionais como também a amadores locais. 

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