Memória artísticas de um teatro: as companhias acolhidas I
Quando as actividades teatrais eram quase exclusivamente o único entretenimento dos cidadãos, a vinda de uma companhia de fora era motivo de muita curiosidade. Não havendo escola adequada, era no palco que os amadores se faziam actores, pelo que a observação das principais figuras da cena portuguesa era-lhes também de grande utilidade, contribuindo para a formação de cada um, enquanto actor ou actriz. Como dizia Fialho de Almeida:
Em todos os tempos do teatro português os grandes actores e actrizes se fizeram na rua, em plena multidão, estudando e observando a vida em plena liberdade, ao invés de estarem a ouvir a respeitáveis professores de cinquenta anos, com que intensidade vulcânica se devem exprimir as paixões dos vinte – que eles provavelmente nunca sentiram. Manuela Rey, Emília das Neves, Emília Adelaide, etc. – estudaram a ciência de visionar tipos dramáticos em laboratórios psicológicos – que eu até tenho vergonha de dizer : - Taborda era tipógrafo, António Pedro, carpinteiro, Adelaide Douradinha lavava casas, Adelina Abranches, filha duma hortaliceira [SIC] do Campo de Sant’anna, e foi aí, em plena multidão, sofrendo, trabalhando e chorando, que esses grandes artistas surpreenderam da vida os lances que com tanto brilho souberam exteriorizar. [ALMEIDA, 1970: 15]
Talvez por este motivo, e de um modo geral, podemos dizer que o público aveirense sabia acolher e acarinhar as companhias nacionais, apesar de, pontualmente, não comparecer à convocação.
Contudo, nem todas conseguiam granjear apreciadores no meio provinciano. Como vimos, no capítulo anterior, por vezes, nem a fama que traziam de Lisboa era suficiente para atrair a população.
Sendo figuras públicas, era normal que também despertassem a curiosidade dos portugueses, que não se poupavam em aplausos e tributos. Assim, podemos imaginar como Taveira se terá sentido, naquelas noites de Junho, de 1863: as poesias de homenagem, os intermináveis aplausos e os inúmeros ramos e coroas de flores artificiais são testemunho do real entusiasmo vivido e da ovação sentida por todos os presentes. Como se não bastasse, no final da noite, o mesmo foi acompanhado por um grande número de habitantes, e por música, ao hotel onde estava instalado. Esta situação repetiu-se aquando da sua partida, até à estação do comboio. Era o primeiro actor profissional a encantar os aveirenses, proporcionando noites com “casa à cunha” e fazendo com que os lugares não tivessem chegado para todos os curiosos.
Um dos aspectos que agradou à população foi o facto de o senhor Taborda ter feito um benefício aos artistas aveirenses, actuando no mesmo tablado que eles e manifestando admiração pelo patriotismo e mérito deste probos actores. Aquele que tanto idolatravam estava ali em comunhão com todos, sem qualquer tipo de vedetismo ou vaidade. E, provavelmente, as palavras de incentivo, vindas de tão conceituada figura, tê-los-á motivado ainda mais, levando-os a almejar sucessos idênticos.
Pelo palco do Aveirense passaram várias companhias portuguesas e estrangeiras. Destas, destacam-se as espanholas de zarzuela, uma vez que, ao longo de vários anos, animaram os serões aveirenses com enorme afluência. Os seus espectáculos eram normalmente constituídos por operetas e/ou zarzuelas e, mesmo o facto de serem interpretadas por crianças, não afastava o público. Na verdade, em 1900, a Companhia Infantil de Zarzuela fez-se anunciar grandemente, com as suas 40 crianças, e foi tão bem sucedida que permaneceu na cidade durante todo o mês de Abril, com espectáculos quase diariamente, sempre com casa cheia.
Ao longo das duas primeiras décadas do século XX, as Companhias de Zarzuela encheram os cartazes, nomeadamente em Dezembro de 1900, em Novembro de 1902, em Janeiro de 1903, em Janeiro e Março de 1905, em Março de 1908, em Abril e Maio de 1910 e em Janeiro e Fevereiro de 1916. Não é, pois, de admirar que seja este o género de espectáculos que o Clube dos Galitos comece por imitar, como veremos mais adiante.
Exibiram-se em Aveiro as Companhias de Zarzuela de Mário Perez Soriano, Juan Bosch, Barrilaro, Lorenzo Simonetti, Luís Coronel, José Moron, entre outras. Como se disse anteriormente, eram companhias muito bem acolhidas, e que alcançavam uma vitória ímpar. Como recordaria, em 2 de Julho de 1955, o jornal Litoral:
No público era vivo e evidente o interesse para tais [zarzuelas] representações: o Aveirense enchia-se por completo e os aplausos eram calorosos e prolongados. [Litoral, 2.07.1955]
Uma das poucas que o não conseguiu, foi a que elegeu Julho e Agosto, de 1893, para os seus espectáculos. A escolha dos meses de verão, não deve ter sido a mais correcta, visto que, um pouco por todo o lado, grassava uma crise que levava a que muitas fábricas despedissem os seus empregados. Além dessas notícias, eram também as relacionadas com o encarecimento do custo de vida que preenchiam as páginas dos periódicos. No entanto, os que podiam poupar alguns réis, preferiam o teatro de feira. No final, a referida companhia teve várias dificuldades para conseguir cobrir as despesas e poder prosseguir viagem.
Nos meados do século XX, as companhias espanholas dão lugar a companhias vindas do outro lado do Atlântico. Tiveram grande aclamação pública a Companhia Eva Todor, a Companhia de Dulcina de Morais e Odilion de Azevedo, a Companhia Cacilda Becker e a Companhia Maria Della Costa. [SANTOS, 2004: 315]
De um modo geral, eram companhias que se encontravam em Lisboa e que, na sua passagem para o Porto, paravam em Aveiro onde davam um ou dois espectáculos. De todas estas, importa destacar a Companhia Maria Della Costa por um espectáculo que não chegou a ser apresentado, mas que esteve anunciado no Litoral, de 8 de Junho de 1957. A censura esteve atenta. Apesar de ter permitido que A... respeitosa, de Jean-Paul Sartre, fosse representada no Teatro Apolo de Lisboa (durante o mês de Maio), não deu autorização a que a mesma seguisse em itinerância. Disto mesmo nos diz A República, de 11 de Junho de 1957: “Por motivos imprevistos ficou sem efeito a representação no Porto, Coimbra e Aveiro, da peça A... respeitosa”. Esta representação deveria ter ocorrido a partir do dia 12, no Porto e, no dia 17, em Aveiro. No entanto, a Polícia Política fez uma perseguição tão feroz à Companhia que esta teve de cancelar os outros espectáculos. O argumento foi o do costume: a peça não era acessível à compreensão das grandes massas. Contudo, algumas críticas foram feitas à atitude da entidade censória. Aveiro incluía-se, assim, no grupo das poucas cidades que poderiam ter a oportunidade de desfrutar de um espectáculo único, provando a mentalidade aberta das suas gentes. Era um facto que o Aveirense pertencia a um conjunto de teatros por onde era quase obrigatório passar. Todavia, talvez com receio de agitar outro tipo de consciências, o Governo de então não permitiu que tal acontecesse. De qualquer forma, a imprensa local chegou a anunciar o espectáculo, tendo, dias depois, explicado o porquê da sua anulação.
[...] Nada de concreto se nos disse, na altura, sobre os motivos da suspensão. E, muito naturalmente, julgámos que ela teria resultado de qualquer vulgaríssimo desentendimento contratual entre a Companhia e a empresa do Aveirense.
Soubemos depois que o impedimento se filiava, pura e simplesmente, na proibição de representar a peça em Aveiro, medida extensiva também ao Porto e a Coimbra. [...]
Mas o Jornal de Notícias de 14 deste mês, em artigo do agudo crítico Ramos de Almeida, esclareceu-nos: «A... Respeitosa», pelo que ali se revela, não poderia mostrar-se a plateias destituídas de maioridade cultural e moral para assistir ao espectáculo... [...]
[...] «A... Respeitosa», de Jean Paul Sartre foi proibida, alegando-se que o público do Porto, Aveiro e Coimbra ainda não possuía maioridade cultural e moral que permitisse assistir ao espectáculo.
A coisa foi dita assim mesmo ou por outras palavras equivalentes a uma Empresa Estrangeira que nos visitava e que vinha ao Porto e iria a Coimbra e a Aveiro, sem quaisquer intenções comerciais, apenas para fazer e mostrar «bom Teatro», como infelizmente não se deixa representar em Portugal. [...]
Aveiro, cheia de tradições e bafejada por surto progressivo que a torna das primeiras do país, já tem o mesmo público – como é óbvio mais reduzido – de Lisboa, para compreender sem se corromper, a peça de Sartre. [...][Litoral, 22.06.1957]
Como já vimos, foram vários os artistas que comoveram os amantes locais das artes cénicas. Entre os vários aplaudidos, duas companhias se destacaram: a Companhia do Teatro D. Maria II e a Companhia Itinerante Rafael de Oliveira.

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