Introdução

Até meados do século XIX, os poucos dados que temos acerca da vida teatral aveirense referem algumas encenações esporádicas, a maior parte das vezes, relacionadas com festas religiosas. A partir de então, o dia-a-dia dos cidadãos começa a estar registado em periódicos locais. Felizmente, alguns chegaram até aos nossos dias. Neles, além das muitas tricas políticas, também encontramos, por vezes, referências aos tempos livres e a outras actividades mundanas, o que nos permite, neste caso, reconstruir a História do Teatro em Portugal e acompanhar a vida das colectividades locais, que tanto contribuíram para a mesma. 
Numa cidade cosmopolita como Aveiro, no século XIX, as actividades lúdicas dos cidadãos não eram muitas, devido à escassez de tempo e à própria falta de variedade das mesmas. Dois momentos se impunham no calendário de festas dos aveirenses: os bailes de “mi-carême” (em Fevereiro e/ou Março) e a Feira de Março (em Março e Abril). Ao longo do ano, à excepção de umas touradas ou de alguma romaria, pouco mais havia onde distrair os espíritos, após a labuta na ria ou nos campos – as duas principais actividades que dinamizavam a economia local.
Era com alguma dificuldade que os aveirenses conseguiam assistir a espectáculos de teatro. Alguns periódicos falam em representações pontuais, em casa de pessoas mais abastadas, e, portanto, não acessíveis a todas as classes. Só em Março, por alturas da feira anual com o mesmo nome, é que o povo, em geral, tinha acesso a alguma representação. Por tal motivo, não é de estranhar que toda a gente ansiasse por espaços condignos, onde se pudesse entreter. 
Curiosamente, serão os mais desfavorecidos os iniciais impulsionadores das artes cénicas aveirenses, construindo os primeiros teatros da cidade, inicialmente na Rua da Fábrica e, mais tarde, um outro na Rua do Rato (Anexo I, documento 1). Nesses espectáculos, predominavam, sobretudo, as farsas ou comédias dos inúmeros autores que então proliferavam e, de quando em quando, também havia oportunidade de assistir a algum “dramalhão”, dos de fazer chorar “as pedras da calçada”... 
Com tanto público ávido de passatempos, que aperfeiçoava a veia cómica ou melodramática em cada encenação a que assistia, é natural que o espaço destes “teatrinhos” fosse pequeno, sobretudo para receber os grandes mestres da altura. Cada vez se desejava mais e melhores acomodações. Contudo, até à construção do Teatro Aveirense, muita polémica havia de instalar-se. 

As primeiras “pancadinhas de Molière” soaram no Teatro Aveirense na noite de 5 de Março de 1881. O momento era solene e de enorme orgulho para a população, pois há muito que se esperava por tal cerimónia. Na realidade, desde que José Estêvão[1]  tinha conseguido o terreno, vinte e sete anos se tinham passado com muitos obstáculos à mistura. Era, por isso, um momento único no qual todos queriam participar. A Companhia, de “primeira ordem”, vinda de Lisboa, estava contratada para três dias de espectáculo. O sucesso foi tão grande que acabou por prolongar a sua estada, aproveitando o facto de, finalmente, haver um local pequeno mas condigno, um dos melhores da província – como se dizia. A plateia, reduzida, era composta de geral, superior e cadeiras; possuía frisas a toda a volta e, por cima, duas ordens de camarotes.
Desde então, e exceptuando momentos pontuais em que esteve fechado para remodelações, o Aveirense não mais deixou de ser o palco principal da cidade. Resistindo à porfia de outros espaços e de outros divertimentos, após 125 anos, continua a ser o principal tablado de Aveiro. Para tal, houve que evoluir e, com mais ou menos dificuldade, ir fazendo as adaptações à medida que o progresso o solicitava (Anexo I, documento 3). Primeiro, a necessária protecção do espaço contra incêndios; depois, a instalação da luz eléctrica e, posteriormente, a ampliação da sala, uma vez que o espaço era exíguo para abarcar um maior número de público.
 Aqui foram apresentados grandes sucessos, não só por actores profissionais, como também por aqueles que faziam do teatro um passatempo dos seus serões de ócio. O cartaz de espectáculos sempre foi muito variado, sendo que, de um modo geral, as companhias profissionais, ofereciam, essencialmente, teatro declamado e, mais tarde, revistas, as amadoras tinham tendência para apresentarem operetas e revistas, enquanto os alunos do Liceu ofereciam os autores nacionais, também com muito êxito, no que se refere a números de assistentes.
Apesar de, ao longo de muitos anos, se ouvir falar em decadência, o verdadeiro amante do teatro não deixou de lutar contra esta crise que, pontualmente, se instalava. E, quando tal acontecia, foram, sobretudo, as companhias profissionais, de Lisboa e Porto, as mais afectadas. Pelo contrário, à semelhança do que se passava um pouco por todo o país, as inúmeras companhias de amadores que proliferavam na cidade, não tinham “mãos a medir”. Sempre com casa repleta e, dizia-se, com uma perfeição digna de actores habituados à cena, não espanta que, depois, as companhias não locais tivessem de inovar, caso quisessem ser bem acolhidas. Mesmo quando as companhias amadoras apresentavam espectáculos de inferior qualidade, não deixavam de ser muito aplaudidos pelos seus conterrâneos. Situação que não era bem compreendida por alguns intelectuais e por todos os que queriam acompanhar as novas correntes teatrais que vinham de fora, reprovando fortemente o fraco gosto dos seus concidadãos. 


O grande actor Alves da Cunha representou quarta-feira no Teatro Aveirense. Ninguém nos camarotes. Meia plateia. A porcaria do Cantar do galo deu 13 representações com enchente à cunha! Aveiro mostra em tudo a sua intelectualidade. [O Povo de Aveiro, 9.05.1937]

No entanto, nesta querela entre o anónimo pagante e o crítico intelectual, a vitória estará do lado do primeiro. Para que o teatro sobreviva, é preciso público e, como veremos mais adiante,  este sentia uma certa relutância em a aderir a novas técnicas e a novas correntes estéticas. Por isso, entre o certo e o incerto, as companhias optavam por ir ao encontro do gosto daqueles que lhes davam audiências e, consequentemente aplausos e lucros financeiros.


Esta tese visa, pois, o levantamento destes momentos e o registar dos espectáculos realizados, perpetuando a memória dos nossos antepassados que, com tanto labor e sacrifício, e, muitas vezes, contra inúmeras dificuldades, conseguiram levar a cabo tão árduas tarefas (Anexo IV, V e VI). Além disso, veremos até que ponto a sociedade aveirense se envolveu na criação e construção do seu Teatro. O que é que terá levado a que muitos se endividassem por causa desta paixão? Que alegrias e tristezas trouxe à região este “negócio” para o qual a maior parte da população contribuiu? Que dificuldades houve, depois, que ultrapassar para que este sonho não desabasse? 

Este trabalho será desenvolvido em seis partes. Os dois primeiros capítulos tratam de enquadrar o Teatro Aveirense ao nível histórico e social, bem como dos teatro seus antecedentes. No capítulo 3 veremos qual o papel da sociedade aveirense na edificação e manutenção de um espaço como este. Em teatro sempre se falou em crise e, por isso, veremos, no capítulo 4, como é que esta afectou o Aveirense. O último capítulo de pesquisa prende-se com a memória artística deste Teatro, fazendo-se o levantamento das companhias que actuaram neste palco e as marcas que deixaram na sociedade aveirense. Por último, apresento as reflexões finais, tecendo considerações e sugerindo possibilidades para futuras pesquisas nesta área.





[1] José Estêvão Coelho de Guimarães (1809-1862): jornalista, político, entusiástico defensor das ideias liberais e opositor pertinaz de vários governos, tornou-se um dos principais oradores parlamentares entre 1836 e 1862; grande impulsionador do desenvolvimento em Aveiro, sua terra Natal.

Comentários

Mensagens populares