Grupos de duração efémera ou intermitente

Como já vimos, e por diversas vezes, sempre que a população necessitava de dinheiro, era ao teatro que se recorria. Exceptuando a época das festas, as noites aveirenses ofereciam poucos ou nenhuns divertimentos aos jovens. 
Apesar de terem tido uma participação pontual, estes agrupamentos não devem ser esquecidos, devido à importância que tiveram no formar de mentalidades, na instrução da população e no fidelizar de públicos. Houve anos em que a competitividade entre os amadores da cidade era de tal forma que todos queriam apresentar as récitas mais bem sucedidas, como comprovamos com a quase simultaneidade de distintas estreias. Veja-se, por exemplo, o que sucedeu em 1925. Durante a excelente campanha que os Galitos estavam a fazer com a revista Caldeirada, aparece O moleiro de Alcalá, pelo Grupo de Opereta Amadores Aveirenses. Em 1926, no dia 10 de Julho, os Galitos apresentam, pela primeira vez em português, a opereta Cavalaria Rusticana, enquanto que a Associação Dramática de Aveiro apresenta, onze dias depois, O rei dos Gatunos. Em 1939, os Galitos, continuam em cena com a revista Ao cantar do galo, depois do triunfo em Lisboa, quando um grupo de amadores tenta interromper esses êxitos sucessivos, apresentando, dois dias antes, a sua récita. Permanentemente escarnecedor, sobre esta diversidade de agremiações, diz O de Aveiro:

TEATRO – GRUPOS TEATRAIS: Um foi a Coimbra representar A filha da caldeirada, e dizem que foi lá muito aplaudido. Outro representou em Aveiro, no mesmo dia, O moleiro de Alcalá, e muito aplaudido foi. Em ambos os grupos há figuras muito boas, mas, no conjunto, ambos eles estão incompletos. Falta de juízo. Com juizinho, juntavam-se os dois, pondo de parte disputas de alecrim e manjerona, e, então, sim, arranjavam um grupo completo. [O de Aveiro, 3.05.1925]


O gosto pelo teatro sempre foi muito apurado e poucos deviam ser os que ficavam indiferentes às diversas chamadas das distintas companhias, uma vez que, em qualquer dos espectáculos, havia, normalmente, um grande número de intervenientes. O fascínio pelo teatro era enorme e muitos não resistiam ao apelo do palco. Mais do que gostar de ver, os aveirenses gostavam de fazer! Pouco importavam os dotes ou a aprendizagem de cada um. E, desde que o ponto ajudasse, nem era preciso, muitas vezes, saber o papel de cor.  A benevolência dos vizinhos perdoava falhas maiores e, no confronto directo com os actores profissionais, estes não tinham dúvida a quem atribuir mérito. Vejamos, de uma forma sucinta, sob que nomes se agrupavam os jovens, quando não estavam integrados numa colectividade maior, como era a dos Galitos.

O primeiro grupo de “curiosos”, fundado após a abertura do palco principal da cidade, surgiu por volta de 1883, com a finalidade de angariar fundos para a Caixa dos Bombeiros Voluntários. Este grupo, constituído por uma “trupe de estudiosos rapazes [...], mancebos despidos da vaidade tão peculiar nestes casos” [O Povo de Aveiro, de 11 e 18 de Março de 1883], apresentou-se, nos dias 24 e 25 de Março, com o drama Carlos III ou A inquisição em Espanha e a comédia em um acto Três noivos distintos e um só verdadeiro. É provável que se tenham juntado outras vezes, pois há diversas referências a actuações de “curiosos locais”. No entanto, sem haver registo dos nomes dos elementos que formavam estas sociedades, torna-se difícil saber se eram sempre os mesmos ou se eram outros amadores.

Em 1921, organizou-se o Grupo de Educação Artística que teve, como ensaiador, João Mendes da Costa que, na sua mocidade, frequentara os bastidores dos teatros lisboetas, encarando, por isso, muito a sério o seu papel de ensaiador e contra-regra. Pelos vistos, a sua exigência levou-o a abandonar o grupo, zangado, antes da única apresentação pública, no dia 28 de Janeiro de 1922, data do aniversário dos Bombeiros Voluntários Velhos da cidade, cuja receita revertia a favor dessa associação humanitária. Mesmo assim, o espectáculo foi montado, tendo ficado José Duarte Simão como ensaiador, naquele que viria a ser o seu primeiro espectáculo, antecipando numerosos sucessos. Quanto a João Mendes Costa, aguardou que, humildemente, o contactassem para regressar, o que nunca se verificou.

            Entretanto, formou-se o “Grupo Dramático da Associação dos Empregados do Comércio” apresentou dois espectáculos no Teatro Aveirense: um, no dia 12 de Junho de 1922 – com a peça O genro do Caetano - e outro, no dia 17 de Março de 1923 – com as comédias A anedotaO gordo e o Especialista de senhoras. A propósito desta representação, cita-se um episódio recordado por um dos intervenientes, no seu livro de memórias: 
Uma actriz [Micas] havia de queimar, em cena, uma carta; e a personagem seguinte, ao entrar, exclamaria: “Que cheiro que aqui está a papel queimado!”. Porém, ela não levou fósforos para queimar a referida carta, e rasgou-a; a personagem, que, dos bastidores, tinha visto aquele gesto, ao entrar exclamou: “Que cheiro que aqui está a papel rasgado!”[1] [CAMPOS, 1988: 125]

Quando alguns elementos dos Galitos - João Costa, Gervásio Aleluia, Aurélio Costa,  Manuel Moreira, José Monteiro, Firmino Costa e Ulisses Pereira - se zangaram, formaram o Grupo de Opereta de Amadores Aveirenses, tendo produzido variados espectáculos, em 1925, com a única opereta que ensaiaram: O moleiro de Alcalá. Notável é o facto de estarem em cena ao mesmo tempo que A filha da caldeirada, apresentada pelos Galitos de idêntico sucesso. Nesta opereta, participaram muitos amadores aveirenses pois, só no coro, entravam 34 figuras e na orquestra 25 executantes. Apresentaram cerca de dezasseis espectáculos e ainda foram em “tournée” às cidades de Braga e Viseu.

Depois do Grupo de Opereta, Aurélio Costa fundou, em 1926, a Associação Dramática de Aveiro. Dela faziam também parte Carlos Aleluia, António da Costa, Firmino Fernandes e António Lé, todos dissidentes dos Galitos. Durante o tempo de formação, apresentaram O rei dos gatunos (Arséne Lupin) – que subiu à cena exactamente uma semana depois da Cavalaria Rusticana dos Galitos -, em 1926 e As alegrias do lar, em 1927. Porém, a rivalidade com o Grupo Cénico do Clube dos Galitos dava estímulo para novos projectos. A vontade de mostrar as aptidões desta nova formação era também, enorme. Para isso, Aurélio Costa propõe-se encenar a ópera-cómica A mascote, recorrendo a comediógrafos seus conhecidos na capital, para revisão dos textos. A estreia deu-se no dia 30 de Junho de 1928, seguindo-se um Verão inteiro de apresentações. A descrição do que aconteceu, foi feita por Manuel M. Moreira, nas páginas de O Democrata, quatro dias depois:
A impressão não podia ser melhor. O cenário, de primoroso efeito, rico de luz. As figuras muito bem vestidas e a sua arrumação muito bem cuidada. Os coros magníficos, como sempre.
Afirmo, porque tenho assistido a centenas de representações de operetas levadas por profissionais, que estes não têm um conjunto de coros como os do teu grupo. Afirmo-o sem paixão partidária, pois os que o contrario disseram são eivados de facciosismo.
Em Aveiro formam-se grupos de coros como em parte alguma e estes coros, pela sua correcção, pela sua postura, pela sua beleza e pelas suas vozes, dão sempre um enormíssimo realce às peças que os amadores de Aveiro representam. [...]
A ti [Aurélio Costa] se deve o ter-se levado em Aveiro a difícil peça A mascote. Só o teu amor por coisas de teatro, só a tua decidida vontade seriam capazes de tentar representar aquela ópera cómica. Companhias há que a puseram de parte pela sua dificuldade. Tu, não olhaste a dificuldades e venceste. Os meus parabéns.
Só quem desconhece o que é por em cena uma peça daquelas, o trabalho insano de longos meses, as arrelias, contratempos, e dissabores que isso causa; quem não faz ideia das mil e uma coisas adversas que constantemente surgem a quem, como tu, arcou com a responsabilidade de dirigir e fazer representar A mascote, é que deixará de te coroar pelos teus trabalhos. [O Democrata, de 4.08.1928]


Não se sabe o que aconteceu depois. O que é certo é que, em 1934, Aurélio Costa fundava outro grupo - Grupo Amadores Unidos de Aveiro - apresentando uma revista: Aveiro em foco. O sucesso não foi muito e, talvez por isso, a sua carreira tenha acabado neste dia. Foi o início de um lento abrandar da sua actividade cénica, e, a pouco e pouco, foi deixando a encenação de peças. Quando o fazia, era essencialmente com alunos das escolas aveirenses ou a pedido (como fez em 1946, com o Grupo Cénico das Fábricas Aleluia).

Por volta dos anos 40, a Fábrica Aleluia teve também o seu papel nas actividades teatrais da cidade. Depois de os Galitos terem terminado com as suas actividades cénicas, só os alunos dos liceus é que se aventuravam no palco do Aveirense. Os mais adultos, que ainda sentiam o sabor das luzes, não queriam ficar indiferentes. Incentivados por um dos responsáveis da Fábrica, o senhor Carlos Aleluia (também ele um ex-Galito), formaram o Grupo Cénico das Fábricas Aleluia. Durante cerca de duas décadas, encenaram com alguma regularidade as suas peças e a vontade em os ver era tanta que tornava o palco da fábrica insuficiente. Nessas noites, também o Aveirense enchia. 




[1] João Evangelista Campos, Achegas para a Historiografia Aveirense, Câmara Municipal de Aveiro, Aveiro, 1988

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