Enquadramento Histórico e Social de Aveiro
A cidade de Aveiro é, do ponto de vista da sua arquitectura, uma cidade relativamente jovem, quando comparada com outras capitais de distrito. Na verdade, no seu perímetro urbano, não se encontram muitos monumentos ou vestígios arquitectónicos que sejam motor de forte atracção turística, para além de algumas igrejas e capelas. O monumento mais antigo que chegou até nós – a Sé de Aveiro - data do final do século XV, encontrando-se instalado na Igreja do antigo convento de São Domingos. Desse período, pouco resta, uma vez que a sua fachada é já barroca (de 1719) e o interior bastante mais pobre. Para além dele, só o Museu da cidade – antigo convento de Jesus – e a Igreja da Misericórdia é que são motivos de alguma demora. Porém, na história de Aveiro, terá havido outros monumentos interessantes, não tendo, contudo, chegado aos nossos dias ou porque os deixaram cair ou porque foram demolidos, uma vez que a expansão da cidade a isso obrigava. Foi o que aconteceu com as muralhas datadas do século XIV e as suas oito portas, o aqueduto e várias capelas e igrejas de características invulgares, dos quais se encontram testemunhos escritos em documentos da época. (Anexo I, fig. 3, e anexo III)
Quem hoje visita Aveiro, procura a originalidade do seu casario, nomeadamente os edifícios em Arte Nova, a luminosidade do céu e o convívio da planície com o mar. Na parte mais antiga da cidade - mas com traços modernos - facilmente se encontra uma rua cortada a meio por um braço de ria, ou um carro que circula, paralelamente a um barco. É esta singular situação geográfica que, ao longo de vários séculos, lhe serviu de factor de progresso ou retrocesso.
Apesar de a sua existência já ser antiga, só nos últimos séculos é que Aveiro conheceu uma grande expansão. A primeira referência à toponímia aveirense data do ano 959, altura em que a condessa Mumadona Dias doa em testamento toda a região ao mosteiro de Guimarães. Estes terrenos eram importantes devido às suas salinas e ao facto de se encontrarem à beira mar.
No século XV, há que destacar duas datas no crescimento da região: 1434 e 1472. A primeira, refere-se à data em que D. Duarte concedeu à vila o privilégio de uma feira franca anual que ainda hoje se realiza: a Feira de Março. A segunda, prende-se com o ano em que a filha de D. Afonso V, a Infanta D. Joana, entra no Convento de Jesus, professando uma vida religiosa até à sua morte. Estes dois momentos, juntamente com a actividade continuada da pesca e do comércio marítimo, foram factores determinantes de desenvolvimento da região. Como veremos mais adiante, a importância da Feira de Março transpõe as habituais trocas comerciais, uma vez que os seus aficionados procurarão também os divertimentos e as actividades de lazer a baixo preço, bem como as novidades trazidas de outras partes.
Perante tais circunstâncias, muitos forasteiros instalaram-se na vila. Na verdade, em 1500, habitavam no burgo cerca de 14 000 pessoas, fazendo de Aveiro uma das maiores vilas de Portugal. Tal como refere Diamantino Antunes do Amaral:
A sua população, amálgama de gente, vinda dos quatro cantos do continente português e que aqui se fixava, subiu extraordinariamente, atingindo os 14 000 habitantes no alvorecer do século XVI. Também neste século os seus 100 navios de alto bordo (naus e galeões, quase todos aqui construídos, segundo Pinho Leal) mantinham um intenso comércio com a África, a Índia e o Brasil, recentemente descobertos. Todos os anos armava 50 a 60 caravelas para a pesca do bacalhau nos bancos da Terra Nova. [...]
Além de tudo, o porto de Aveiro era demandado por mais de 100 navios, na sua maioria estrangeiros, que aqui vinham trazer e comerciar os seus produtos.
Foi, sem dúvida, esta a idade de oiro de Aveiro e de toda a região de que era centro. [AMARAL, 1976: 37]
Sendo uma cidade costeira, Aveiro sempre coabitou com o mar, dependendo da sua vontade para o bem e para o mal. E, se até ao século XV, este lhe trouxe progresso, nos séculos seguintes só lhe trouxe adversidade e retrocessos. Senão vejamos os resultados do estudo feito pelo autor aveirense a propósito da evolução da população: [AMARAL, 1976: 43]
Ano
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Nº de habitantes
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1500
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14.000
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1572
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12.100
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1685
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10.000
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1736
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5.300
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1767
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4.400
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1797
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3.500
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Este longo decrescer demográfico tem a ver com o facto de que, nesses tempos, a ria de Aveiro não escoava bem as suas águas para o mar, o que levava a que as ruas e os campos ficassem inundados durante muitos dias. Por este motivo, era impossível trabalhar na agricultura, na pesca ou mesmo dentro da própria vila. O comércio estava arruinado, a apanha do moliço – importante para adubar os campos – escasseava e as salinas ficavam submersas grande parte do ano. A construção naval, tão importante nos séculos XV e XVI, viu a sua actividade drasticamente reduzida. A insalubridade era enorme e os cidadãos não podendo trabalhar, acabavam por partir para outras localidades (anexo I, fig.s 1 e 2).
Efectivamente, no tempestuoso inverno de 1575, o cordão litoral continuou a sua marcha para sul, ultrapassando as dunas da Gafanha e um violento temporal entulhou a barra com as areias, não podendo sair – como diz Pedro Leal – nem um iate; os campos tornam-se alagadiços e estéreis, impossibilitando durante muito tempo os trabalhos agrícolas. [...]
[...] Três anos depois, D. Sebastião [...] quis fazer reviver os tempos épicos dos seus antepassados, e Aveiro ainda pode contribuir com um regular número de navios que havia de levar a Marrocos a fina flor da fidalguia de Portugal.[...] [AMARAL, 1976: 38]
Em 1759, é elevada à categoria de cidade, numa altura em que a decadência era grande e o número de residentes francamente diminuto. Apesar desta ajuda do Marquês de Pombal, os problemas com a barra ainda continuaram durante mais alguns anos. Como diz Diamantino Amaral “Aveiro [...] nos fins do século XVIII, era uma cidade de pobres, de famintos e de doentes, que arrastavam a sua dor pelas ruas quase desertas.” [AMARAL, 1976: 48]
Só ao fim de dois séculos de quase abandono pelos poderes públicos é que D. João VI, a 2 de Janeiro de 1802, manda elaborar um projecto para a “abertura e estabilização da barra de Aveiro”. Finalmente, depois de concluído o projecto, em 1808, o nível de água nas ruas da cidade baixou consideravelmente o que permitiu uma nova rotina na vida das pessoas.
Todavia, ainda levou algum tempo até que a população recuperasse de tantos séculos de miséria. À semelhança do que se passava no resto do país, a situação não era favorável: as revoltas eram constantes bem como as guerras civis. Procurava-se a todo o custo um regime político que agradasse à maioria. A Regeneração, e depois Fontes Pereira de Melo, vem trazer alguma paz à população, dando a Portugal um verdadeiro desenvolvimento, ainda que este se sentisse chegar lentamente.
Aveiro não será excepção. A Câmara local começa por estabelecer “medidas que visam melhorar as condições do comércio” [RODRIGUES, 1998:18]. Em 1855, as obras eram tantas que “obrigaram” à destruição da muralha medieval (por ordem do Governo). Tal justificava-se devido à carência de pedras para as várias construções. Por todo o lado, surgiram novos edifícios e infra-estruturas que melhoraram não só o nível de vida da população existente, mas também atraíram novos investidores e habitantes. Surgiu o primeiro liceu, a primeira escola técnica e industrial e também os primeiros teatros públicos. Lentamente, Aveiro começou a dar continuidade ao desenvolvimento interrompido no século XVI.
Em 1861, o Distrito de Aveiro, dava “Graças a Deus, pelo bom estado sanitário da cidade, nos meses de Agosto e Setembro, apesar de se ter semeado o mesmo arroz que em anos anteriores, negando a opinião da Comissão encarregada de estudar a matéria, segundo a qual: “em Portugal prova-se que 16 hectolitros de arroz custam uma vida, que a mortalidade nas terras onde hoje se semeia arroz, comparada com a que havia antes de o semearem, dá cento e cinquenta mais” [Distrito de Aveiro, 24.09.1861].
As vias de comunicação – ligando Aveiro às localidades limítrofes – bem como a chegada do comboio, em 1864, ajudaram a que a cidade se tornasse no centro de toda a região envolvente, quebrando a secular dependência da ria e do mar (cf. Rodrigues, 1998: 14). O caminho-de-ferro desempenhou um importantíssimo papel no desenvolvimento da cidade, com alteração significativa na vida das pessoas. Essa vantagem, deve-se a José Estêvão que, ao conseguir “desviar” ligeiramente o traçado previsto para a linha do norte, estava a proporcionar à cidade a oportunidade de um desenvolvimento que há muito se desejava. Graças a esta conjuntura, Aveiro pôde desfrutar de uma civilidade que, de outro modo, teria sido muito mais branda. Começaram a aparecer touradas, circos, espectáculos de ginástica e espectáculos com feras ou animais nunca vistos. Organizaram-se serões com anões, ventríloquos, ilusionistas, malabaristas, prestidigitadores, concertos musicais e bailes de máscaras. Finalmente, a população dispunha de saúde e condições sociais para se divertir e distrair.
Em cem anos, a população residente em Aveiro tinha mais do que duplicado: de 4.000 munícipes em 1802, passou-se para 6.395, em 1864, e para 10.012, em 1900. Só nesse ano, nasceram 247 crianças nas duas freguesias urbanas.
Quando o Teatro Aveirense foi inaugurado, em 1881, Aveiro era, finalmente, um burgo em franca expansão. Esta continuou ao longo da primeira metade do século XX. Em 1903, o Campeão das Províncias noticiava que a “febre das construções” em todo o concelho era tamanha que, em todas as reuniões da Câmara Municipal, aparecia “uma ou mais dúzias de requerimentos pedindo licença para obras” quer fossem grandes, quer fossem pequenas.
Em 1904, havia já falta de alveneres, carpinteiros e pintores. A necessidade de distracção começou a atrair a população, o que fez com que novos espaços surgissem, um pouco por todo o lado.
Ao longo do século XX, o concelho de Aveiro registou um crescimento considerável da população residente. A título de exemplo, entre 1960 e 1981, a população aumentou 31%, variação esta superior à média de Portugal Continental (13%) e do distrito (19%). Tal deveu-se não só à implementação de um grande número de fábricas, mas também à criação da Universidade. Em 2004, o número de domiciliados rondava já os 73.626.

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