Companhia Rafael de Oliveira

De todas as companhias que passaram por Aveiro, esta foi, sem dúvida, a mais bem sucedida, já que, raras vezes, se queixou de infortúnio, tendo todos os seus espectáculos colhido fortes aplausos, mesmo quando se tratava de reposições.
A primeira vez que os aveirenses tiveram a oportunidade de a aplaudir foi em Julho de 1933, aquando da sua permanência no “Stadium de S. Domingos[1]”. Seguindo a  tradição, com companhias do saudoso género do teatro Dalot, a satisfação foi tal que, dos terrenos cedidos onde montavam o seu palco, depressa passaram a ocupar a principal e única sala de espectáculos da cidade. Durante longos anos, Aveiro foi ponto de passagem obrigatório para esta Companhia de Teatro Desmontável, “o melhor conjunto no género”, como se intitulava. As relações entre ambas as Direcções – do Teatro e da Companhia – foram sempre muito amistosas, como se comprova pela correspondência trocada, em arquivo no Teatro Aveirense, onde as referências à saúde e os cumprimentos à família são uma constante. Além disso, a primeira consulta da Rafael de Oliveira era Aveiro, o que não é de admirar pois, muitas vezes, só aqui garantia um saldo que lhe permitia superar as despesas. 

Em 1957/58, a sua estada prolongou-se ao longo de seis meses, dando um total de 80 representações: 50 no seu próprio espaço e 30 no Teatro Aveirense. De acordo com a imprensa, esta dilação ter-se-á devido não só à variedade dos géneros apresentados como ao bom convívio e acolhimento que os actores encontraram na cidade. Alheio a isso não será porventura o facto de, pontualmente, contarem com a colaboração dos actores amadores, o que atraía ainda mais público. Ou, como escreve Eduardo Cerqueira no Litoral, de 25 de Janeiro de 1958, o facto de esta ser uma Companhia que se apresenta com “honradez” pois “o que faz é a sério – e bem”. E prossegue o autor/historiador aveirense:

Não atiram poeira aos olhos dos espectadores para alcançar êxitos fáceis de bilheteira; não se deixam arrastar pelas predilecções popularuchas; não transigem com a depravação e o aviltamento da sua arte. Fazem teatro, decerto, para agradar ao público, mas com o consciencioso propósito de a si próprios se satisfazerem. [Litoral, 25.01.1958]

       
O fanatismo era de tal forma que, mesmo após tantos meses de espectáculo em Aveiro, os seus apreciadores chegaram a organizar uma excursão a Guimarães, a 26 de Abril de 1958, tendo a Companhia apresentado a peça A herdeira de Verneil, por nunca ter sido vista em Aveiro. 

A última vez que passaram por Aveiro foi no ano de 1975, pouco tempo antes de cessarem este longo projecto. Actuaram quarenta e quatro vezes no Aveirense.


[1] Terreno no centro da cidade que funcionava como local onde se praticava desporto (há registos de encontros de futebol e de boxe) e onde se instalavam, pontualmente, os itinerantes que não possuíam categoria suficiente para actuarem no Aveirense (anexo III, fig.s 37 e 38).

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