Companhia do Teatro D. Maria II

No que concerne às companhias portuguesas mais assíduas em Aveiro, destaca-se, pela sua presença regular, a Companhia Nacional do Teatro D. Maria II. Importa, contudo, ressalvar que esta companhia, ao longo da sua existência, esteve sob a alçada de diversos empresários, possuindo, inclusive, outro nome - Companhia de Teatro de Almeida Garrett - entre 1910 e 1939.
A primeira vez que se apresentou na cidade da ria, foi a 5 de Março de 1881, tendo dado quatro récitas (e não três, como dizem alguns periódicos), nos dias que permaneceu na cidade, durante as festas de inauguração do Teatro Aveirense, sob o nome “Sociedade de Artistas Dramáticos”[1]. Faziam parte dela, as principais figuras da cena portuguesa: Eduardo Brasão, João e Augusto Rosa, Ferreira da Silva, Maria Pia, Rosa Damasceno e Lucinda Simões. No entanto, a crítica não foi unânime relativamente ao seu desempenho:

A Companhia de D. Maria II deu três espectáculos em Aveiro. O drama Amor por conquista não agradou; a Mantilha de renda teve um grande sucesso, o Drama novo foi recebido friamente e diz o Distrito de Aveiro, «é triste que os nossos primeiros actores, que a companhia do nosso teatro normal se entretenha com peças deste género, que nem sequer tem a vantagem de satisfazer ao gosto público, e que apenas podem servir para revelar a vocação dum ou outro actor, para o género trágico.» [Jornal da Noite, 9.03.1881]

O Campeão das Províncias relatou, todavia, uma situação diferente:

Nesta récita, o entusiasmo tocou as raias do delírio. No último acto da Estrangeira (de Dumas filho), a ovação atingiu as proporções de um sucesso, porque nunca nesta terra se fez manifestação mais importante. Atiraram-se para o palco flores em profusão extraordinária. As senhoras, dos camarotes e frisas, agitavam lenços, significando os seus aplausos. As plateias, de pé, saudavam os actores num estrondear incessante de palmas. [...]
No fim do espectáculo, à saída, os actores (Virgínia, Rosa Damasce­no, Brasão, Augusto Rosa, João Rosa, Joaquim Almeida...) eram esperados à porta do Teatro por muitos cavalheiros desta terra, que os acompanharam ao hotel numa verdadeira marche aux flambeaux, levantando vivas a todos eles com verdadeiro entusiasmo. [Campeão das Províncias, de 12.03.1881]


De salientar que, A estrangeira, tinha obtido fartos aplausos em Lisboa, à semelhança da peça Um Drama novo, com mais de mil e oitocentas representações cada uma. As outras peças – Amor por conquista e Mantilha de renda – não constam da lista dos seus triunfos. [A Companhia Rosas & Brasão, catálogo de exposição, no Museu do Teatro, 1979]

Nos anos sucessivos, a Companhia de Teatro de D. Maria II regressou, com alguma regularidade, a Aveiro. De um modo geral, o público acolhia com gáudio os seus espectáculos. No entanto, caso a exibição se revelasse um desapontamento, os protestos não se faziam esperar. Foi o que aconteceu em 1909, com A Severa por culpa do seu assunto que “é escabroso [notando-se] a contrariedade com que as plateias e mormente as de província, aceitam a peça, taxando-a de imoral” [Beira-Mar, de 28.06.1909], mas também da própria companhia. Daí o acolhimento frio que recebeu do público aveirense. A Companhia despediu-se da cidade, deixando uma impressão de decadência e de inferioridade: 

[...] Mais vale fechar de vez as portas do Normal do que tê-las assim abertas aos transfugas do Dalot, em pleno Rossio, quer dizer, nas bochechas da capital, como se fora terreiro de feira para exibição de teatro de barracão. [...] Aquela casa transformou-se, de facto, na Runa dos artistas de teatro e, ao mesmo tempo, em albergue de crianças abandonadas. [Beira-Mar, 14.06.1909]

 Assim como está, sem ordem, sem superioridade, sem grandeza, sem arte e sem artistas, uma perfeita manta de farrapos a desfazer-se, nem é um teatro de reformas, inovador e revolucionário, nem sequer satisfaz ao espírito da lei que o criou, com todo o seu aspecto burocrático e manga de alpaca, mas respeitando os velhos moldes académicos e conservadores de trucs e ficellles, de grandes frases e grandes poses, com que todas essas glórias do palco, extintas ou a extinguirem-se, tocavam na corda sensível dos nossos avós. [Beira-Mar, 28.06.1909]

Talvez por tudo isto, e pelos preços elevados que cobraram, se tenha seguido um longo jejum sem terem regressado. Em 1916, sob o nome de Companhia do Teatro Almeida Garrett, deram dois espectáculos: Correio de Leão e Pedro, o cruel, a 11 e 12 de Setembro, respectivamente. É certo que apenas Carlos Santos se mantinha no elenco da pateada Severa, contudo, mais uma vez, a crítica não lhes foi nada favorável. Em relação à primeira, esta foi friamente recebida tendo-se escrito que “não se recomenda e assim o pano desceu sobre alguns quadros sem único aplauso dos espectadores, que mostraram dessa maneira o descontentamento”. [O Democrata, 15.09.1916]. No entanto, isso não impediu que, para a peça do dia seguinte, Pedro, o Cruel, se tenham vendido mais 83 lugares para as galerias do que o permitido, o que resultou num aglomerado perigoso de pessoas. Protestou-se com o empresário que se justificou dizendo que tinha alertado os últimos compradores desta situação:

[...] Centenas de testemunhas podem afirmar o que presenciaram vendo naquele lugar, não uma fila de espectadores, ocupando os seus 120 lugares marcados, mas uma pilha, um cacho de gente, apertada, acotovelando-se numa situação horrorosa, na contingência até de vir cá abaixo, o que muito fácil seria se por desgraça o varandim cedesse à pressão violentíssima exercida por os que se esforçavam e estendiam sobre as pessoas sentadas às quais o varandim servia de apoio para não serem esmagadas. [O Democrata, 22.09.1916]

Quando começou o espectáculo, todos se levantaram e protestaram. Depois de muito tempo de pateadas, veio um actor ao palco e os ânimos serenaram e os “espectadores da galeria, com uma resignação mais que evangélica, sofrendo aquela tortura diabólica, mantiveram-se no mais rigoroso silêncio, na mais completa ordem.” Como se não bastasse, “o Sr. Comissário de Polícia, que estava muitíssimo à larga e confortavelmente sentado no seu camarote, deu parte em juízo contra dois espectadores da galeria [...] culpando-os de todo o incidente, imputando-lhe a responsabilidade pela interrupção do espectáculo e perturbação da ordem!!!”. [ibidem]

Coincidência ou não, alguns anos decorreram até novo regresso. Não se sabe se, por vontade dos aveirenses ou dos empresários. Porém, só em 1938, é que a situação se alterou. Já era sua residente a Companhia Amélia Rey Colaço - Robles Monteiro e a enchente foi digna de registo.

A nossa casa de espectáculos registou na terça-feira uma grande enchente, como há muito não era vista.
Atraídos pelo reclame da peça que os artistas do nacional, de Lisboa, anunciaram, o público acudiu à bilheteira e imediatamente esgotou a lotação, ficando os retardatários a chuchar no dedo. É que o bom teatro, o teatro de escola, ainda é, apesar de tudo, o preferido. [O Democrata, 14.05.1938]

A recompensa de Ramada Curto foi desempenhada magistralmente por “Amélia Rey Colaço, que tão bem soube encarnar a mulher do povo, pondo em relevo as suas maiores virtudes – dignidade, amor, trabalho”. [ibidem]
Nos anos cinquenta, a Companhia Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro conseguiu diversos contratos, alguns, como se disse,  com condições mais vantajosas para a companhia do que era normal. De um modo geral, os periódicos locais, ao anunciar os espectáculos, não tinham medo de prever um grande sucesso, uma vez que se estava na presença da grande Amélia Rey Colaço. Mas, nesta Companhia, não era só o casal Rey Colaço - Robles Monteiro que granjeava enormes créditos na imprensa. Outros intérpretes se juntavam de modo a atrair mais espectadores. Olhando para os diversos programas, podemos encontrar nomes como os de Raul de Carvalho, Aura Abranches, Emília de Oliveira, Ester Leão, Paiva Raposo, Rogério Paulo, Helena Félix, Luz Veloso, Erico Braga, Palmira Bastos, entre muitos outros.
As relações entre as Direcções do Aveirense e esta companhia foram sempre das mais cordiais. Em 1951, descerrou-se uma lápide de homenagem a Palmira Bastos. A própria Amélia Rey Colaço, era apreciadora deste palco, sendo costume tecer-lhe largos elogios. No entanto, os espectáculos de 16 e 17 de Outubro de 1954, não foram muito concorridos, uma vez que, de acordo com os dirigentes aveirenses, a empresa resolveu ir primeiro a Albergaria-a-Nova, o que fez com que muitas pessoas não tivessem vindo à capital de distrito, como era habitual.

A passagem desta companhia pela cidade do Vouga foi pautada por altos e baixos, num total de trinta e nove visitas. Em 1955, os aplausos não foram poupados aquando dos espectáculos A terceira palavra e Para cada um a sua verdade. Anunciado dias antes na imprensa local, com várias citações da crítica dos jornais do Porto, o público acorreu em grande número, enchendo a sala por completo e comprovando a categoria dos artistas. Os periódicos locais destacaram, principalmente, as interpretações primorosas de Rogério Paulo, Helena Félix, Palmira Bastos e Amélia Rey Colaço. Muitas vezes, recorriam a actores locais para fazerem de figurantes. Foi o que aconteceu com a peça Prémio Nobel, em Outubro de 1954, tendo Robles Monteiro solicitado quatro raparigas e cinco homens, o necessário para fazerem de enfermeiras e de polícias.
Uma das últimas vezes que passou por Aveiro, em 1957, conheceu o fracasso com os espectáculos Peraltas e Sécias (18 de Maio) e A muralha (19 de Maio). Em dois dias de espectáculo, só se venderam 725 bilhetes - dois terços da lotação - havendo, na primeira noite, “aplausos discretos”, e, na segunda noite, ainda conseguiram “romper a muralha de reserva dos frios espectadores” [Litoral, de 25.05.1957]. O motivo que terá levado ao malogro do primeiro dia, prendeu-se, talvez, com o facto de ser uma peça já muito vista na cidade (tendo sido, inclusivamente, representada por amadores), o que afastou os espectadores. Tal como lhe advertira a administração do Aveirense, numa carta, enviada a 21 de Setembro de 1954, “as pessoas que frequentam o teatro são sempre as mesmas, com raras excepções, e portanto, evitam ver uma peça em repetição.” Também poderá ter sido o preço dos bilhetes, um pouco mais elevados do que o normal, como se viu, na página 41.
No entanto, e contrariando estas explicações, A muralha, apresentada pela Companhia de Rafael de Oliveira, a 19 de Dezembro de 1958, não teve problemas em atrair auditório, apesar de ser um texto já  do conhecimento de público mais assíduo. 



[1] Mais tarde, em 1893, tomaram o nome de Companhia Rosas & Brasão.

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