CETA – Círculo Experimental de Teatro de Aveiro
Após algumas décadas repletas de actividades teatrais, caiu-se num marasmo, suscitando o aborrecimento e a reclamação do público. Os únicos aveirenses que subiam ao palco eram os alunos das diferentes escolas e os empregados da Fábrica Aleluia. Por tal motivo, ansiava-se por que novos grupos surgissem na cidade. Um pouco por todo o país, despontavam os projectos de teatro experimental. De um modo geral, eram grupos que “misturavam reflexão e prática do teatro” [SANTOS, 2004: 299] e que procuravam o renovar da linguagem cénica e a actualização dos reportórios. Foi assim com o Teatro-Estúdio do Salitre, criado em Lisboa, em 1946 e também com o Teatro Experimental do Porto (TEP), criado em 1952.
Em Fevereiro de 1959, através do jornal Litoral, nomeadamente do seu suplemento literário juvenil, - Vae Victis - lança-se um apelo a quem quisesse criar um conjunto de Teatro Juvenil. Vários jovens responderam ao apelo tendo-se realizado a primeira reunião na sede do próprio periódico.
O nome escolhido foi o de Círculo Experimental de Teatro de Aveiro (CETA), seguindo o exemplos de outros grupos portugueses [SANTOS, 2004: 297]. Ávidos por fazerem algo contra a apatia teatral que se vivia na altura, o grupo inicia logo os ensaios e, após cinco meses, tinha já uma peça para apresentar ao público aveirense. Apesar das dificuldades, impostas por um Governo Civil que seguia à risca a política de controle do Governo português, o grupo não esmoreceu. Essas dificuldades prenderam-se com a censura e com a legalização do grupo, que só veio a acontecer em 1966.
A primeira estreia foi marcada para o dia 3 de Julho de 1959. Um dos convidados a testemunhar este acontecimento era o ensaísta e médico aveirense Mário Sacramento, que até tinha escrito um texto para o programa do espectáculo. Por ser uma persona non grata para a PIDE, esta não autorizou o espectáculo. Houve então que proceder à retirada do referido texto e, só depois, a 31 de Julho, desse ano é que O urso, de Anton Tchekov, e O dia seguinte, de Luís Francisco Rebello, puderam ser apresentadas. Entre os vários convidados, encontravam-se Luís Francisco Rebello e esposa, a actriz Mariana Vilar. Sobre esse dia, o Correio do Vouga publicou uma pequena notícia onde realçava, sobretudo, que “os cenários, modernos e apropriadamente bem concebidos, [que] eram de Gaspar Albino, colaborador do nosso jornal” [Correio do Vouga, de 8.08.1959] e rematando que tudo tinha corrido bem.
Desde esta data, com mais ou menos actividade, o grupo continuou, não desistindo de trazer a Aveiro textos dramáticos de autores modernos e, pelo menos durante a vigência do regime fascista, “dar um pontapé no charco nauseabundo da cultura citadina” [Litoral, 21.3.1975]. Enquanto tentavam formalizar a sua existência, vão desenvolvendo diversas actividades teatrais, muitas das quais lhes granjearam fama e reconhecimento público, sob a forma de diversos prémios do então SNI, através dos populares “Concursos de Arte Dramática das Colectividades de Cultura e Recreio”, obtendo em:
- 1962: 1º prémio do concurso de Arte Dramática (À espera de Godot, de Samuel Beckett );
- 1963: Finalista do Concurso de Arte Dramática e Diploma de Honra (A longa jornada para a noite, de Eugene O’Neill);
- 1964: 1º Prémio do Concurso de Arte Dramática (Auto da compadecida, de Ariano Suassuna);
- 1964: Menção Honrosa do concurso de Arte Dramática (O tinteiro, de Carlos Nuñiz);
- 1965: Diploma de Honra do concurso de Arte Dramática (Conhece a via láctea, de Karl Wittinger).
Além destes prémios, também alguns dos seus actores eram, amiúde, galardoados, o que lhes angariou um certo estatuto na categoria do teatro amador. José Júlio Fino, um dos elementos mais conceituados, foi convidado pelo D. Maria II, para integrar a Companhia Rey-Colaço, em 1966.
Das vezes que o CETA concorreu (ou pôde concorrer, uma vez que o vencedor não podia competir no ano subsequente) aos concursos do SNI foi sempre finalista. Os jovens investiam de tal forma nestes certames que chegaram a ser acusados de só se prepararem para estas ocasiões. O prémio pecuniário que amealhavam, motivava-os. O dinheiro nunca era muito, não obstante a ajuda da Junta Distrital. E nem sempre esta recompensa a nível nacional levava mais público aos seus espectáculos. O género em moda continuava a ser a revista e estes textos de vanguarda não eram muito bem recebidos pela população. Em 1962, na noite em que festejavam a primeira vitória nesse concurso dramático, com À espera de Godot, perante a ausência de assistência, abriram as portas a quem quisesse entrar gratuitamente. Igualmente O diário de Anne Frank, em 1969, registou, na sua estreia, cinquenta pessoas, número que correspondia ao dos elementos associados!
Apesar da fraca afluência a este tipo de peças, os jovens não desanimaram e teimaram em ser reconhecidos pela cidade. Durante algum tempo, grande parte dos textos apresentados destinavam-se, quase exclusivamente a homens - À espera de Godot, Auto da compadecida, O tinteiro, O lugre, O inspector geral, etc. - por falta de mulheres no grupo.
É curiosa a forma como se desenrola a história deste grupo, uma vez que, por um lado, o Estado Português não lhes reconhecia credibilidade, não os legalizando e, por outro, premiava os seus trabalhos, deixando que fossem apresentados alguns dos autores censurados pelo regime. Isto não quer dizer que o grupo não fosse controlado e inclusive algumas das suas peças proibidas. Contudo, a “ilegalidade”, impedia-os de concorrer a subsídios públicos, o que lhes trazia custos acrescidos e dificuldades maiores. Na verdade, a PIDE não se afastava muito da sede do então CETA - Círculo de Teatro de Aveiro (a palavra “Experimental” não podia figurar no nome). No entanto, todos estavam habituados a contornar a situação, nomeadamente com a não divulgação dos nomes dos autores das peças ou, pelo menos, disfarçando, sob siglas, a sua identificação. O importante era não desanimar e continuar a combater a apatia teatral que se vivia na província. Em certas ocasiões, os esforços eram em vão. Por exemplo, em 1967, um texto de Jaime Gralheiro, Ramos partidos, após longos ensaios, não chegou sequer a subir ao palco, por ter sido, de véspera, proibido pela entidade censória local.
Nos anos sessenta, o público aveirense arrastava-se num revivalismo sem precedentes. Os antigos sucessos dos Galitos continuavam a fazer enorme êxito e tornava-se difícil criar novos gostos teatrais, para lá da revista. Os jovens do CETA bem que tentavam, nem que para isso tivessem de fazer de tudo um pouco, como dizia Artur Fino ao Litoral, de 8 de Julho de 1967 “fazemos a festa e atiramos os foguetes”. Mesmo as companhias de Lisboa só se apresentavam praticamente com revistas ou, pelo menos, peças de autores portugueses (anexo V). Das poucas vezes que as companhias profissionais traziam teatro moderno, o acolhimento era mais frio. De tal forma que o Teatro Experimental do Porto (TEP) e o Teatro Experimental de Cascais (TEC) deixaram de vir a Aveiro.
A motivação, para não desanimarem, vinha das muitas idas a outras cidades, onde tinham já os seus admiradores. De qualquer maneira, sendo um grupo que se considerava “experimental” não tinha como objectivo chegar à totalidade da população, mas antes opor-se àquilo a que Pavis chama “teatro tradicional, comercial e burguês que visa a rentabilidade financeira e se baseia em receitas artísticas comprovadas, ou mesmo ao teatro de reportório clássico, que só mostra peças ou autores já consagrados” [PAVIS, 2001: 388-390].
Depois de sete anos de insistência, a Governo Civil autorizou a sua legalização com o nome “Círculo de Teatro de Aveiro”. Após a queda do regime fascista, o grupo pôde finalmente utilizar o nome que sempre quis: “Círculo Experimental de Teatro de Aveiro”.
Ainda se mantém em actividade.

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