As Direções do TA
Como já vimos, a construção do Teatro Aveirense deveu-se a um punhado de aveirenses notáveis que, ao verem a edificação dos teatros das outras cidades, não quiseram que a sua terra ficasse para trás. Em conjunto, procuraram motivar a população e o Estado para uma obra que se queria imponente. Tudo começou, mais uma vez, pela mão de José Estêvão, que graças à sua influência junto dos órgãos de decisão do país, conseguiu uma casa para que lá fosse construído o teatro. Por ser um lugar acanhado, a Câmara optou pela sua venda e, com o dinheiro, comprou um terreno na principal praça da cidade. Estava-se no ano de 1854, tendo sido lançada a primeira pedra a 16 de Setembro de 1855, dia da aclamação de D. Pedro V. Por tal motivo, o primeiro nome pensado era de Teatro D. Pedro V. As dificuldades foram muitas, pois o dinheiro era pouco, por isso as obras pararam logo de seguida. Foram retomadas em 1857, chegando a levantar-se as paredes até ao primeiro andar. Aí voltaram novamente a estagnar, desta vez durante cerca de 20 anos. Entretanto, várias campanhas foram feitas, todas infrutíferas. Finalmente, a partir de 1878, um novo rumo foi tomado, graças à anteriormente mencionada “Sociedade Construtora e Administrativa do Teatro Aveirense”. A ideia de dividirem a despesa das obras por todos os cidadãos que quisessem não era original. O mesmo já se tinha feito em, Aguiar da Beira, Anadia, Guimarães, Ílhavo, Lagos, Oliveira de Azeméis, Portalegre, entre outras localidades portuguesas [BASTOS, 1908: 309-375]. No entanto, apesar da vontade de todos, não foi fácil terminar as obras: a despesa era muita e nem todos os sócios pagavam as cotas.
Posteriormente, o elevado número de acções nas mãos de excessivos particulares fez com que muitos quisessem participar na sua gestão, não facilitando as reuniões dos accionistas e questionando as contas apresentadas (anexo III, fig. 43).
Reuniram-se no dia 22 do corrente em assembleia geral os accionistas do Teatro Aveirense a fim de discutir o relatório e contas da actual direcção. Como de ordinário tem sucedido, a discussão correu animada, divertida e picaresca, trocando-se galanteios palavrosos de parte a parte e insinuações pessoais e inconvenientes a ponto de em algumas ocasiões chegar a degenerar n’uma charivari irritante e n’uma perfeita hilaridade. [O Povo de Aveiro, de 29.1.1882]
Reúnem-se em assembleia, no dia 12 do corrente, os accionistas do Teatro Aveirense, a requerimento de cerca de quarenta sócios, afim de pedir contas à actual direcção da maneira péssima como tem gerido os interesses desta sociedade. [O Povo de Aveiro, de 5.3.1882]
Estas discussões terminavam quase sempre em bem, uma vez que, a maior parte das vezes, encerravam com louvores à Direcção. Mas isto só aconteceu nos primeiros anos de existência do teatro. Ao longo do últimos anos do século XIX, na imprensa local, publicavam-se muitas acusações à (má) gestão do Aveirense:
· não se lavravam actas das reuniões;
· as contas não eram claras;
· o número de bilhetes vendidos era superior à capacidade da sala;
· a escolha dos artistas não era a melhor;
· e os empregados faziam o que queriam.
Por volta de 1883, o próprio edil questionava a vantagem em deter essas acções. Manuel Firmino, um dos insignes impulsionadores da conclusão das obras, agora na qualidade de Presidente de Câmara, pretendia obter algum lucro com a transacção das mesmas, já que, relativamente ao Teatro, nada beneficiava. Para a população afigurava-se chocante que a Câmara quisesse alienar património municipal, vendendo-as a pessoas estranhas ao concelho.
Esta quantia [3.600$000 réis] existe por enquanto, improdutiva, e a Câmara luta com dificuldades enormes, pois que a sua receita é diminutíssima e não pode, sem gravame publico aumentá-la. [O Povo de Aveiro, 25.3.1883]
No entanto, não eram só os jornais a fazer acusações à Direcção. Algumas vezes, também os artistas que lá actuavam se queixavam de roubos e de explorações. Que o diga Taborda, a quem desapareceram 6$000 réis do seu camarim, e outros actores, que ficaram sem objectos de ouro. Houve até o caso de uma companhia internacional, em 1884, que, tendo obtido diminuta concorrência poucas receitas colhera. Como se não bastasse isto, no final, além do aluguer do espaço (24$000) e de 4 almudes de petróleo para a iluminação da sala, o empresário tinha outras despesas injustificadas.
[Estas contas] acarretam o descrédito para esse edifício que está quase sempre ás moscas, porque as despesas injustificadas afastam dele muitas empresas. Na lista dessas despesas [...] até figuram os empregados na fiscalização das retretes!!!
Aquilo é uma desordem, um caos, uma anarquia. Cada empregado faz o que quer e como quer sem que os directores do teatro intervenham[...] É uma choldra, uma casa sem rei nem roque. [...]
A essa companhia [...] foi-lhe subtraído um alfinete no valor de 100 francos. [O Povo de Aveiro, de 9.11.1884]
O (des)conforto da sala também era assunto da imprensa. Por volta de 1885, solicita-se, com urgência que a direcção substitua as cadeiras por bancadas iguais às da superior, de modo a que as senhoras não tenham de se levantar, para dar passagem aos cavalheiros.
A 28 de Janeiro de 1888, é eleita uma nova Direcção, apesar de todos os elementos terem inicialmente recusado o cargo. A sua primeira acção será fazer um louvor à equipa cessante. Na primeira reunião, o Comandante dos Bombeiros pediu que fossem feitas pequenas obras por causa da segurança do público, em caso de incêndio. Se as não fizessem, mandava fechar a casa. Como bem recordaria O Povo de Aveiro, de 3 de Fevereiro de 1989, tal era mesmo indispensável pois, só no ano transacto, tinham ardido 20 teatros!
Para obter receitas, não se olhava a meios, nem que para isso se vendessem mais bilhetes do que a lotação da sala. Foi o que aconteceu em Dezembro de 1892, quando se quis compensar o facto de a sala ser pouco utilizada e estar muitas vezes fechada. Decisão errada, uma vez que o excesso de pessoas, provocou o pânico entre a assistência, principalmente nas mulheres que desmaiavam. Ainda para mais, não ofereceram bilhetes à imprensa local que, por isso, nada pôde dizer sobre a récita. A Direcção do Teatro, foi acusada de estar a explorar o público que, devido ao aperto, pagou e não viu o espectáculo.
Com a chegada do século XX, as dificuldades mantiveram-se. As obras, cada vez mais necessárias, não se podiam fazer pois o dinheiro mal dava para as despesas correntes. As duas reuniões anuais eram muito pouco frequentadas. A maioria das actas lavradas, entre 1900 e 1907, são respeitantes a “não-sessões”, com poucos ou mesmo nenhum sócio a responder ao convite da Direcção. De dezasseis convocatórias, só duas é que tiveram o número necessário de participantes para funcionar e ambas serviram para eleger corpos gerentes ou discutir assuntos burocráticos.
As sucessivas cedências para as quais a Direcção era solicitada, só geravam prejuízo. Mesmo as actividades mais rentáveis – os bailes de Carnaval – acabavam por trazer tantos estragos que os lucros quase não compensavam. Nestes dias, a plateia era completamente desmontada, o que, por vezes, resultava em danos nas cadeiras. Logo no primeiro ano, o periodista que assistiu a tais “cenas verdadeiramente nojentas”, deixou a sua indignação patente em duas edições do Campeão das Províncias - 23 e 25 de Fevereiro, de 1882 – tanto mais que já se tinham dado tumultos no domingo e, mesmo assim, a Direcção cedeu a casa na terça-feira de Entrudo.
[...] Temos de continuar acusando a Direcção que deu lugar a que no Teatro se quebrassem cadeiras e se destroçasse parte da mobília, alugando-o para bailes de máscaras, que todos sabem o que são em Aveiro.
O que ali se passou está abaixo de tudo o que é indigno, indecente e indecoroso. Não temos palavras que exprimam a nossa indignação ao referir o que sucedeu dentro daquele formosíssimo edifício, que o patriotismo de muitos levantou para educar e corrigir costumes e que especulações menos dignas reduziram à última degradação e à mais baixa de todas as baixezas.[...]
[...] A sala estava uma desordem pasmosa, as bancadas tinham sido arrancadas brutalmente, todos falavam, ninguém se entendia e de vez em quando ouvia-se uma cadeira gemer, ao peso de uma bengala possante. [Campeão das Províncias, de 25.02.1882]
Os bailes de carnaval eram uma tradição que já vinha dos tempos dos outros teatros e, também nessa altura, eram momentos onde reinava a confusão e a gritaria. [Distrito de Aveiro, 6.2.1863]
Em geral, nos primeiros anos, com estas festas, arrecadavam-se cerca de cem mil réis, excepto no ano de 1907, que só rendeu 38$000 réis, motivo de mais uma crítica do Povo de Aveiro à (má) administração. Curiosamente, nesse mesmo ano – 1907 – no jornal Distrito de Aveiro, publicam-se os Estatutos do Teatro Aveirense, com a data de 1879. O artigo saiu nas edições de 23 e 27 de Maio, uma tentativa de calar as muitas vozes contestatárias que se ouviam pela cidade, em relação à gestão do mesmo.
Sempre que a Direcção mudava, eram feitas auditorias às contas da direcção anterior. No entanto, e apesar de, constantemente, se encontrarem erros, nem sempre se preveniam estas situações. Por volta de 1912, entende-se que há uma sobreavaliação do património e manda-se fazer uma mais rigorosa. A imprensa apoia esta atitude, uma vez que, meses antes, já tinha mostrado a sua aversão pelo estado em que estava o teatro “montado ao mais completo abandono, livros de actas de sessões não existem, nem em qualquer tempo se efectuaram sessões” [O Democrata, de 9.02.1912]. Não é, pois, de estranhar que, a partir desta data, se encontrem nos livros valores inferiores a outros apresentados anteriormente. Exemplo disso é a monta do prédio que, em documentos que vão de 1908 a 1910, valia 13.000$000 e, em 1912, dez contos de réis, ao que se acrescentavam dois contos de réis pelo cenário, mobília, candeeiros, gasómetro e canalizações.
As notícias de incêndios em teatros eram publicadas amiúde. Conscientes de que a segurança na sala não era muita, pede-se ajuda ao Comissário da Polícia Civil de Aveiro para que ponha cobro em alguma desorganização que então se verificava e para maior tranquilidade de todos. Este publica, a 12 de Outubro de 1912, um edital, onde se diz que é expressamente proibido:
1. fumar no palco e nas dependências, a não ser artistas que o tenham de fazer em cena, ou nos camarotes, frisas e galerias;
2. permanecer nos camarotes, frisas ou galerias de chapéu na cabeça;
3. usar chapéu na plateia, depois do levantar do pano;
4. falar em voz alta durante os espectáculos;
5. alterar o programa sem autorização da autoridade;
6. deixar cair com força os assentos das cadeiras de modo a deteriorá-las ou a perturbar o espectáculo.
Apesar de tanta proibição, a primeira a prevaricar é a própria Direcção pois, no Carnaval de 1913, é fortemente atacada por deixar de numerar os bilhetes e por ter aumentado o preço dos mesmos. Levanta-se a suspeita de que assim entra mais gente.
Os desentendimentos entre os sócios eram constantes, o que não é de estranhar tendo em conta o elevado número de accionistas. A 6 de Fevereiro de 1914, noticiava O Democrata, a propósito de uma assembleia, que na mesma “não houve problemas, como se esperava”. Nesse ano, a Direcção consegue, mais uma vez, calar os críticos e a opinião pública ao apresentar um espectáculo que usava, pela primeira vez, luz eléctrica. A afluência foi tanta que houve que proceder a duas sessões por dia – às 20 e às 22 horas.
Com mais ou menos polémica, as Direcções lá vão administrando o Aveirense. A que assume o comando, em 1926, deparou com inúmeras irregularidades uma vez que a escrita estava por fazer e havia incontáveis dividas não registadas. Para as conseguirem pagar, enviam cartas aos credores a solicitar que apresentem eles as suas contas. Como já foi referido anteriormente, esta situação verificava-se com alguma frequência, e, nos livros de registos que não se perderam, facilmente se encontram anos sem qualquer anotação ao nível das despesas ou de envio de correspondência. Por este motivo, é normal que as diferentes Direcções procurassem quebrar as ligações com as anteriores. Foi, talvez, por isso, que, em 1929 todos os empregados tivessem sido despedidos e tivesse sido aberto um novo concurso, para 30 lugares, todos eles masculinos, à excepção de duas serventes que se pretendia fossem mulheres. De referir que um desses lugares era para um aderecista, apesar de nunca ter havido companhia residente nesta casa. Aliás, durante vários anos, houve alguns gastos com artigos de cenários que depois eram alugados às companhias visitantes.
A 20 de Janeiro, de 1945, é eleita uma nova Direcção que teria de empreender as obras de remodelação. Para começar, enviam cartas aos accionistas, informando-os sobre a situação do Aveirense: o inventário estava em ordem e as contas saneadas, “coisa que há muitos anos não se fazia e cuja falta nunca fora notada nas assembleias gerais realizadas durante uns vinte anos[1]”. Havia, por isso, condições para fazer “alguma coisa de útil[2]”. Para obter mais receitas, aumentam o número de dias dedicados ao cinema – terças, quintas, sábados e domingos -, mesmo correndo riscos de algum malogro, o que acabou por se verificar[3]. Por outro lado, sacrifica-se algum lucro, trazendo companhias de declamação ou revistas, de modo a que se varie o género de diversão e cultura. Lamentavelmente, a população nem sempre correspondia ao esperado, mesmo tendo em conta que se praticavam preços mais baixos do que em Lisboa, Porto e Coimbra.
Quanto às obras de melhoramento, estas só foram possíveis em 1949, devido às inúmeras dificuldades burocráticas encontradas para a sua execução, em virtude do projecto de alargamento para a rua onde o edifício se encontrava, o que inviabilizava o previsto aumento de capacidade da sala. Como havia necessidade de se aproveitar ao máximo as capacidades do espaço, a Direcção resolveu seguir o projecto do arquitecto Ernesto Camilo Korrodi, que eleva a lotação para 1.178 lugares. No entanto, tal foi feito um pouco à revelia da Inspecção Geral de Espectáculos que, após a vistoria realizada a 10 de Novembro de 1949, relata diversos problemas dos quais se destacam os seguintes:
Nono – Foram construídas frisas e camarotes, contrariamente ao determinado [...];
Décimo - Foi construída promonoir à altura do segundo balcão excedendo mais de metade da sala, o que contraria o disposto no parecer do Conselho Técnico da Inspecção dos Espectáculos [...];
Décimo primeiro – O edifício apresenta ainda mais algumas divergências em relação ao projecto aprovado, sobretudo no sub-palco. [Relatório da Inspecção Geral de Espectáculos]
Para que a abertura fosse possível, impõem várias condições entre elas a demolição dos camarotes, frisas e balcão, construídos ilegalmente ou, caso contrário, a sua interdição em espectáculos de cinema. Num total, a Inspecção pretende que se eliminem 114 lugares: 10 frisas, 8 camarotes e promonoir do lado direito e esquerdo. Isto a dez dias da abertura... Justifica-se a Direcção com uma “baralhação” de plantas e com o anseio de se obter mais elegância. A solução será a não utilização desses lugares, durante a exibição de filmes (anexo II, fig.s 14 a 18).
Lentamente, e à semelhança do que se passou um pouco por todo o país, o teatro foi decaindo, entrando num processo onde, praticamente, só se exibiam filmes pornográficos e uma ou outra revista.
Em 1998, com a escritura de venda, assinada pela Câmara, passou a ser um teatro municipal, iniciando um novo ciclo na sua vida ao integrar a Rede Nacional de Teatros. 117 anos depois, os accionistas cediam as suas acções, sem que, alguma vez, tivessem recebido qualquer dividendo por tal. No entanto, estava cumprida a sua missão: não deixar que Aveiro ficasse sem um espaço de cultura, que pudesse, sempre que necessário, acolher os artistas de renome ou os mais amadores.
Pouco depois, fecha, mais uma vez, para remodelação total, reabrindo, a 23 de Outubro de 2003.

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