As crises e as suas razões: concorrência

Apesar de este ter sido, durante muitos anos, o único palco da cidade, nem sempre foi fácil atrair a população. É certo que os preços praticados nem sempre estavam ao alcance de todos, apesar de, pontualmente, se dedicarem espectáculos às freguesias rurais onde se praticavam preços “populares” (caso do espectáculo da Companhia do Teatro Apolo, em 1918, com a peça O Mártir do Calvário). Outras vezes, outras atracções chamavam mais alto, ficando o Aveirense “ às moscas”. 
Todas as companhias que passavam por Aveiro tinham de ter em conta a data em que o pretendiam fazer, pois a época nem sempre era boa. Pelo Carnaval faziam-se muitos bailes de Mi-carême e a população preferia-os a tudo o resto; em Março/Abril era a Feira de Março que convidava às despesas[1]; “de 12 a 16 de Maio são as festas da cidade e ninguém vem ao teatro ou cinemas[2]”; em seguida, a época balnear (que ia até Setembro) fazia com que as famílias mais abastadas – e também mais assíduas aos espectáculos – se retirassem para a costa[3]; e o ano terminava com bailes, cada vez mais concorridos (“em Dezembro, as festas de fim de ano dão sempre casas bastante más[4])”. Sendo assim, justificam-se as inúmeras frases que se encontram na correspondência em arquivo, do tipo “a época é má para a realização de tais espectáculos, visto estar muita gente para fora desta cidade a onde só regressa em Outubro[5]”; “há poucos dias foram anunciados dois espectáculos e não se deram por falta de público que comprasse os bilhetes[6]” ou então, “aconselho-o a não vir porque não tiraria nem para as viagens”[7].  
Mas não era só o mês que tinha de ser tido em conta. Os dias da semana eram muito bem analisados, uma vez que nem todos eram bons para espectáculos. De acordo com uma carta de 1931, os melhores dias eram a sexta e o sábado; ficando, mais tarde, as quintas e domingos para o cinema. Houve, contudo, algumas companhias que deram espectáculo ao domingo, tendo de suportar a despesa relativa à não exibição do filme. Foi o que aconteceu a Vasco Morgado, com a peça Rainha do ferro velho, em Abril de 1959, o qual viu o seu saldo ser reduzido em 2.500$00 por ter querido espectáculo ao sábado e domingo, “dias de defeso e que servem de fiel de balança para o equilíbrio cá do negócio”, pode ler-se numa carta de 10 de Março de 1959 ao empresário. No entanto, o contrato não deve ter sido mau, uma vez que, meses depois, voltam com o mesmo espectáculo. Em Novembro de 1960, a Companhia do Teatro ABC pretende dar um espectáculo, durante uma tarde, mas é-lhe dito que à tarde “raras vezes o cinema compensa, quanto mais o teatro”.
Por tudo isto, os contratos com as Companhias que vinham de fora iniciavam-se com muitos dias ou meses de antecedência. É que, além dos condicionantes anteriormente mencionados, havia que ter em conta que os aveirenses preferiam as Companhias locais, sobretudo se estas tinham em representação alguma revista ou opereta.

Um grande grupo de amadores está ensaiando uma revista local [A caldeirada] que tenciona levar à cena muito em breve e para a qual tem já três ou quatro casas passadas, contando mesmo dar muitos mais espectáculos.
O primeiro espectáculo será no próximo dia 31 do corrente, repetindo-se todas as quintas e domingos seguintes.
Isto, como vê, só prejudica qualquer outro espectáculo que aqui se queira dar porque sempre o público dará preferência à revista, visto ser coisa nova na terra e desempenhada por pessoas que todos conhecem.
Acho que o meu amigo faria muito bem em fazer primeiro a sua viagem aos Açores e Brasil e no regresso falaríamos.
Devo também dizer-lhe que pela pouco concorrência que tem, já terminámos hoje com o cinema pois já não dá para as despesas. [Carta de 19 de Maio de 1924, a Carlos de Oliveira]

Como vimos, com alguma frequência acontecia que o nome em cartaz não fosse suficientemente atractivo e arrastasse pouco público. Que o diga a Companhia de Amélia Rey-Colaço e Robles Monteiro cujo espectáculo Asas quebradas, em 21 de Agosto de 1923, pouco público conseguiu atrair, e pela Companhia de Hortense Luz que viu, em Julho de 1939, dois espectáculos[8] seus serem anulados, por falta de público. Também Alves da Cunha teve algum azar, a 17 de Março de 1948, com a peça O ladrão, uma vez que alcançou um malogro de tal ordem que a própria Administração o aconselhou a tão cedo não voltar a Aveiro. O actor ainda contactou o Aveirense, pois pretendia limpar a “má imagem deixada”, trazendo a peça O grande advogado, ou outra, em Abril ou Maio. No entanto, a época já não era das melhores: decorria a feira anual da cidade e as pessoas tinham em memória tal ocasião. Quiçá, por isso, tenha aguardado até 1953, para novo contacto mas, mais uma vez, foi rejeitado, não tendo sequer chegado a haver discussão sobre preços e condições de actuação. Também Maria Lalande e Assis Pacheco, com Milagre da rua, a 26 de Março de 1953, pouca sorte tiveram, junto do público aveirense. A Companhia D. Amélia quase sempre atraiu pouca gente, deixando, por vezes, um saldo negativo atrás de si[9]. E, em Agosto de 1953, nem os nomes sonantes das estrelas da companhia do chamado “Teatro em férias” foi o suficiente para chamar público.          
Para precaverem “fiascos” maiores, os contratos eram à percentagem, sendo, normalmente, 60% para a companhia e o resto para o teatro. Só muito pontualmente é que a companhia conseguia convencer a administração do Aveirense a conceder-lhe 65%. E isto só acontecia quando se tratava de um espectáculo musicado, porque, como dizia a Companhia, “implica uma organização de mais de 32 figuras acrescida de duas camionetas, uma de passageiros, outra de carga, comedorias [SIC] para todo o pessoal, direitos de autor elevadíssimos, orquestra, guarda-roupa e tudo o mais[10]”. Se o público aderisse, ainda se marcava uma nova sessão, para dali a um ou dois dias. Caso contrário, havia que fazer contas à vida e esperar que a bilheteira desse para cobrir as despesas. Em 1958, foi feito um contrato com Giuseppe Bastos, representante da Companhia Brasileira de Revistas, onde a administração do Aveirense se comprometia a pagar mais cinco mil escudos, caso os bilhetes esgotassem. Também a Companhia D. Maria II, em Novembro de 1954, com uma peça de teatro declamado - Essa mulher, de Cesare Giulio Viola- conseguiu um contrato de 70%, o que era mesmo raro.
Outras vezes, algumas administrações decidiram correr os seus próprios riscos e, em vez de contratos à percentagem, compravam o espectáculo por um determinado preço aguardando, depois, que a bilheteira cobrisse a dívida. Foi o que aconteceu, com alguma regularidade nos anos 50, quando o normal era pagar 17 ou 18 mil escudos, por noite e por espectáculo, e deixar para as companhias as despesas com os direitos de autor, viagens, transportes, maquinistas, ajudantes, orquestra e mulheres do guarda-roupa. Já nos finais do século XIX, a casa rendia por volta de 24$470, se vendessem todos os bilhetes, o que não deixava muita margem de lucro, uma vez que a direcção ainda teria de saldar o imposto único, a polícia, bombeiros, pessoal da casa, luz e carpintaria de palco, além da publicidade.

No entanto, este não era o único local de divertimento da cidade. Nos fins de Março, iniciava-se a Feira de Março, que se prolongava ao longo de um mês. Nessa altura, o (pouco) dinheiro tinha de ser bem gerido pelo que, muitas vezes, os aveirenses preferiam gastá-lo nos divertimentos da feira do que nos espectáculos do Aveirense. Além disso, nos barracões do Rossio podiam ser vistos espectáculos e, mais tarde, fitas, a preços mais populares. Por tal motivo, vezes houve em que a administração do Teatro preferiu fechar a casa, em virtude de os lucros não compensarem as despesas. E muitos espectáculos de artistas conceituados eram mesmo rejeitados para que as suas receitas não fossem diminutas. 

Outros divertimentos que, pontualmente, concorreram com o Aveirense foram as touradas e o futebol (anexo III). Relativamente ao primeiro entretenimento, este foi muito vulgar ao longo do século XIX, tendo chegado a haver uma praça de touros na cidade que, segundo os peritos, era das mais modernas e a segunda melhor do país, apesar das muitas vozes contra:

Aveiro, terra atrasadíssima sem melhoramentos naturais de qualidade alguma, possui todavia uma das melhores praças de touros da nação. [...]
Não há nada melhor do que provar o grau de civilização a que este povo chegou. Perca-se tudo mas haja touros. Aquele individuo que gastou uns poucos de contos de réis na praça do Rossio, teria servido com maior vantagem esta terra e os seus próprios interesses, se empregasse esse dinheiro no desenvolvimento ou criação de qualquer pequena indústria. 
Não a quis e tanto pior para ele e para a terra. [O Povo de Aveiro, de 20.05.1883]


O futebol chegou a Aveiro em 1894. Segundo o Campeão das Províncias, de 19 de Agosto, estava marcado, para esse dia, um “match” entre o Ginásio Aveirense e o Grupo Futebolista Ilhavense, na qual participavam também quatro bandas filarmónicas. Era a primeira vez que se realizava um jogo oficial, desde que Mário Duarte tinha ensinado aos outros rapazes como se ocupava o tempo, dando pontapés numa bola de couro. E foi também por sua iniciativa que fundou, em Ílhavo, o primeiro clube de futebol português.  Desde então, e pouco a pouco, este desporto começou por cativar cada vez mais público. Em 1924, são tantos os seus adeptos que a revista Pangloss em Aveiro, fez uma crítica ao facto do país estar cada vez mais virado para esta modalidade:

Três [desafios de futebol num só dia]: um no Rossio, entre os negros de Coimbra e os amarelos do S.P.T. da Forca; o segundo, no Largo do Governo Civil: bater-se-ão como leões dois grupos fixes – os onze de Portimão e outros tantos do Social Sport da Praça do Peixe; finalmente, no Cojo, lutarão como feras Os Galitos, com o Pompeu e o Natividade à frente, e os do Beira-Mar, que são os futuros campeões de Portugal. [...] Isso, é claro, não falando dos desafios parciais que vossências estão habituados a ver: nas Cinco Ruas, em S. Gonçalo, em S. Domingos, na Rua Larga, em todos os becos, em cima da Esquadra, etc, etc. [TAVARES, 1924: 42-43]

A 29 de Janeiro de 1949 é inaugurada a “magnifica sala de espectáculos Cine-Teatro Avenida” [Correio do Vouga, 29.1.1949], com maior capacidade e condições de conforto de acordo com as exigências dos espectadores. A curiosidade e o requinte fizeram com que o público trocasse o velho Aveirense pela moderna e recém-inaugurada sala de espectáculos, na principal avenida da cidade. Com lotação para 1.400 pessoas, distribuídas pela plateia, 1º e 2º balcão e quatro camarotes, todos queriam admirar a obra do arquitecto Rodrigues Lima, que seguia as grandes construções modernas da capital. Para o primeiro dia, foi escolhido o filme Não há rapazes maus, onde se focava a vida e a obra do Padre Américo Monteiro de Aguiar.
 Mesmo limitada, a concorrência era o suficiente para que o Aveirense passasse por algumas dificuldades ao nível das receitas. É que a cidade era pequena para comportar duas salas de cinema e as contrariedades não se fizeram esperar. Por tal motivo, nos anos cinquenta, as administrações das duas casas, para minimizarem o prejuízo, tiveram de se reunir e acordarem esquemas de gestão. A primeira ideia foi acordarem em exibições alternadas de espectáculos, o que implicava que nenhum deles apresentasse dois espectáculos seguidos. Depois, ainda se tentou dividir os dias da semana em que cada casa apresentava sessões de cinema e/ou teatro: terças, sábados e domingos, no Aveirense, quartas, quintas e domingos, no Avenida.
 No entanto, é provável que esta rotatividade não fosse do agrado do Teatro Aveirense, uma vez que, alguns dos contratos foram adiados ou deixados por fazer acabando por perder dinheiro. É o que se depreende de uma missiva a Igrejas Caeiro, a 17 de Novembro de 1951, dizendo que não podem organizar nada enquanto o Avenida não realizar dois espectáculos musicados “a que têm direito”. Em 1952, esta situação mantinha-se. Numa carta ao bailarino Aníbal Sanção, a 13 de Maio, explicava-se que não poderia haver espectáculos no Teatro Aveirense enquanto o Avenida não apresentasse um, visto que o último espectáculo com a Companhia do Teatro Apolo tinha sido organizado por eles. 
O público também não devia gostar de tais decisões, uma vez que a acústica do novo Cine-Teatro não era aconselhada para representações teatrais. Três meses depois da sua inauguração, os periódicos aludem ao desconforto da sala, sentindo-se muito calor  e, em alguns sectores, não se conseguia ouvir nada. Em Maio, O Democrata recorda quais as imperfeições desta sala: “as paredes muito nuas de ornatos, um palco muito pequeno e falta de acústica para os espectáculos declamados.” [O Democrata, 28.05.1949]
Este dissabor, levou a que os seus administradores depressa se vissem obrigados a optar, apenas, por sessões cinematográficas, havendo, por isso, registo de poucos espectáculos (anexo VI).



[1] Numa carta de 13 de Março de 1923, a Tomás Vieira, diz-se o seguinte: “A época de feira é das piores, pois que os diversos e baratos divertimentos que ali se encontram tiram por completo a concorrência ao teatro, a não ser o cinema que se aguenta por ser um espectáculo rápido” [...]
[2] 27 de Abril de 1954, carta a Robles Monteiro.
[3] Na correspondência com diversas companhias de teatro, há alguns registos de espectáculos que decorreram nas praias mais próximas e outros que foram anulados por falta de procura de bilhetes.
[4] 3 de Maio de 1950, carta a Amélia Rey Colaço.
[5] 14 de Agosto de 1925, correspondência com o Teatro Apolo.
[6] 21 de Agosto de 1925, ibidem.
[7] 31 de Maio de 1924, correspondência com Carlos de Oliveira.
[8] Com as peças Riquezas de sua avó e Os bebés.
[9] O défice dos espectáculos de 26, 27 e 28 de Novembro de 1899 foi de 24.720$000; em Maio, de 1905, o défice foi de 32.915$0000.
[10] Carta da Companhia de Revistas do Teatro Maria Vitória, em Janeiro de 1945.

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