Antecedentes

O Teatro Aveirense não foi o primeiro espaço teatral da cidade. Na verdade, a sua construção resultou do esforço de um grupo de cidadãos, ao verem as condições precárias de funcionamento dos outros teatros da cidade: o Teatrinho de São João Baptista e o Teatro dos Artistas Aveirenses. Nestes dois lugares, durante os anos cinquenta e sessenta do século XIX, realizaram-se várias récitas, não só por amadores como também por artistas nacionais e estrangeiros (Anexo IV). De um modo geral, eram sessões muito procuradas, uma vez que os divertimentos escasseavam. 
Consta que também houve outros espaços teatrais na cidade, nomeadamente no Rossio e na Rua do Carril. O Teatro do Rossio funcionou na casa do senhor Matias Freherder, de acordo com o periódico Campeão do Vouga, de 24 de Maio de 1856, tendo recebido espectáculos de companhias amadoras e de outras vindas de fora. O público concorrente dividia-se pela plateia – superior e inferior – e pela galeria, se bem que, esta última, fosse só para as “damas” enquanto a plateia inferior se destinava aos espectadores de menores recursos económicos. 

No domingo [25] teve lugar no teatro do Rossio a récita que anunciamos no nosso número passado. O espectáculo correu com bastante decência e agradou geralmente. Alguns actores têm bastante prática da cena e desempenharam os seus papéis com desembaraço. [...] A concorrência foi sofrível; a plateia superior estava pouco cheia, se bem que a inferior não pudesse admitir mais concorrentes. A galeria estava quase deserta, e isto não revela que o belo sexo aveirense não goste de assistir a tais divertimentos, mas sim que tem desejos de saber primeiro se a companhia nacional vale a pena de ser escutada atentamente. Não duvidamos responder que sim, recomendando-a ao público benigno. [Campeão do Vouga, de 28.05.1856]

E, para o espectáculo do dia 30 de Maio, a galeria chegou mesmo a ser dividida em camarotes. 
O outro teatro, o da Rua do Carril, também era chamado Teatro José Estêvão. Tal como em relação ao espaço existente no Rossio, as referências que se encontram são escassas e, por vezes, contraditórias entre si. O Jornal Campeão das Províncias, de 16 de Junho de 1880, anuncia, para o Sábado seguinte [dia 18] a inauguração deste “teatrinho: uma construção elegante [cujo] cenário foi pintado por um amador distintíssimo e cujo nome não publicamos para o não ferir na sua modéstia”. De acordo com esse artigo, a comédia de César de Lacerda - Mistérios sociais - era encenada pela primeira vez, por uma sociedade de curiosos. Contudo, o Arquivo do Distrito de Aveiro, no seu volume III, num único parágrafo, recorda a seguinte data: “30 de Novembro de 1880: Inauguração do Teatro de José Estêvão, na Rua do Carril. Era um edifício modesto.” Provavelmente, tratar-se-ia de um espaço privado, em virtude da escassez de dados sobre o mesmo.

Todavia, não foi no século XIX que se iniciaram as manifestações teatrais em Aveiro. Cristóvão Pinho Queimado[1], um Licenciado do século XVII, faz a descrição do que, em 1687, eram as tradicionais festas de São João Baptista, orago da já extinta Capela do Rossio, onde podemos encontrar algumas demonstrações para-teatrais: 

   N’esta vila todos os nobres d’ela, e da vila de Esgueira que fica d’aqui uma milha para nascente, desde tempos antiquíssimos tem costume de virem ao cais em dia de S. João Baptista celebrar a sua festa com mui luzidas cavalhadasonde apareciam, e ainda agora aparecem os mais ricos telizes primorosamente bordados com bordaduras de ouro e prata, e sedas de varias cores, e veludos ricos de terciopêlo, com suas armas brasonadas, e divisadas, trajando os seus mais ricos vestidos de gala, e plumas, e depois de praticarem com a maior destreza, e a mais brilhante mestria diferentes jogos de cavalaria, correm a sima pela vila, e acabada esta vistosa função seguem à estacada dos touros, onde cada um à porfia mostra a sua destreza, e manhas em acossar os valentes animais ora de pé, ora a cavalo; [...] e também n’aquele dia se fazem mui vistosos fogos de artificio de dia, e também de noite com figuras como bonifrates de mui engenhosas invenções.” [TAVARES,1937: 99]

Igualmente, Eduardo Cerqueira dá mais achegas acerca da actividade para-teatral da cidade, dizendo que “o Corpo de Deus figurava entre os dias maiores em Aveiro [...] já nos inícios do segundo quartel do século XVIII fora amputada das costumadas danças e figuras como eram «a serpe e drago, cavalinhos, fuscasjucalheiras mouriscas e ciganos» e «mais cousas indecentes e jocosas» que distraiam a devoção.” [CERQUEIRA, 1974: 51-52]


[1] Copiado do original por V. C. C. de Sousa Brandão, e citado por  José Pereira Tavares em Arquivo do Distrito de Aveiro, volume III, pág. 99

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