Academia Aveirense
Os alunos do Liceu de Aveiro pisaram o palco do Aveirense, pela primeira vez, a 13 de Junho de 1901, com a peça A Fábia em Aveiro. E a escolha que fizeram para a sua estreia não podia ter sido mais auspiciosa: representar uma tragédia! Pelo menos, assim dizia o programa do espectáculo. Porém, nada disto se passou, uma vez que o texto era uma autêntica paródia, onde se assassinavam pessoas com abóboras e pepinos. Contudo, a crítica foi favorável aos 36 alunos que desempenharam papéis masculinos e femininos, sem qualquer dificuldade:
Para o papel de 1ª bailarina não podiam ter achado melhor bazaruco do que o Fernando de Moura d’Eça, nem espinafre que melhor contrastasse do que o Inocêncio Rangel. E era leve como um chumbo, a flamenga de Esgueira!... [...]
Em suma, a festa da nossa academia foi simpática e entusiástica. Não obstante a proximidade dos exames, as cólicas não os atrapalharam, e permitiram que representassem com aprovação geral todos os três actos da Fábia em Aveiro. Oxalá que o mesmo lhes suceda, quando tiverem de representar no tablado do liceu, perante um público menos numeroso, é verdade, mas, também não é mentira, mais exigente. [O Povo de Aveiro, 16.06.1901]
Nos anos sucessivos, vários grupos de académicos animaram os serões da cidade. Pelo 13 de Junho, pelo 1 de Dezembro ou numa qualquer comemoração, lá se apresentavam aos seus familiares ou simples curiosos, desejosos de ocuparem os seus tempos livres. Depois de serem avaliados pelos seus conhecimentos teóricos, os alunos predispunham-se a ser avaliados pelo seu desempenho teatral. E faziam-no com tal qualidade que, normalmente, não reprovavam nesse exame:
O Liceu de Aveiro granjeou fama, de há muito, na arte de representar; e, por isso, o público habituou-se a exigir dos improvisados actores de capa e batina um seguro e consciente desempenho dos seus papeis. [...]
As peças não têm dificuldades de interpretação. Aliás, o seu movimentado entrecho, com situações cénicas duma comicidade acessível, fez esquecer uma ou outra inevitável deficiência na representação. [Litoral, 14.5.1955]
Eram normalmente espectáculos variados, cheios de animação e com peças “ligeiras” escritas regularmente pelos professores, que serviam, essencialmente, para reforçar os fundos das Caixas Escolares. Foi o que aconteceu, por exemplo, a 13 de Junho de 1901, a 11 de Março de 1917, a 11 de Maio de 1920, a 20 de Abril de 1945, etc. Outras vezes, eram as homenagens a autores portugueses [1] que levavam estes jovens estudantes ao palco. Além dos dotes cénicos, os aspirantes a actores mostravam também os dotes recitativos, os poéticos e os vocálicos, alguns deles com grandes deficiências, o que pouco importava. A maior parte das peças representadas são originais ou adaptações de escritores nacionais: Gil Vicente, Camões, António José da Silva, Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis, Correia Garção, entre outros. Era, pois, essencialmente um reportório escolar que procurava juntar o lúdico ao instrutivo. Para o público destas récitas, era uma oportunidade de ver não só os seus descendentes em palco mas também contactar com os clássicos lusitanos, algo que escasseava nos reportórios das outras companhias. [Anexo III]
Um dos grandes impulsionadores destes grupos foi José Pereira Tavares (1887-1983), que, durante muitos anos, não só escreveu peças como também ensaiou os próprios alunos. Inicialmente na qualidade de professor e, depois, na de Reitor, dedicou grande parte da sua vida ao Liceu Nacional de Aveiro. Recorrendo aos clássicos ou escrevendo propositadamente para o momento em que se ia dar a récita, nunca deixou de incentivar os alunos para esta actividade. Das suas peças mais famosas destaca-se a tríade de revistas regionais dedicadas a Pangloss: Pangloss em Aveiro (1924), Crepúsculo de Pangloss (1930) e Última visita de Pangloss (1956). Inspirando-se em Voltaire, José Pereira Tavares imaginou o que aconteceria se este sábio filósofo visitasse Aveiro. Com estas três “revistas de costumes”, podemos acompanhar as mudanças da cidade quer ao nível geográfico quer ainda de tradições, rotinas e até mentalidades.
Gil Vicente foi, sem dúvida, o autor mais representado. Tudo começou por volta de 1911, quando Pereira Tavares era aluno do Curso Superior de Letras. Segundo disse o próprio ao número 119 da revista Labor [pp. 408-410], nesse ano, assistiu a uma Campanha Vicentina [2], encetada por Afonso Lopes Vieira e pelo empresário do Teatro República, o Visconde S. Luiz de Braga.
Até esta altura, os estudantes aveirenses só representavam peças de autores locais (Firmino de Vilhena, Fernando de Vilhena, Alberto Costa, Samuel Maia, etc.), visto que Gil Vicente era quase exclusivamente conhecido dos professores e dos discentes de Literatura Portuguesa. Aprendida a lição, e quando houve oportunidade de a pôr em prática, o jovem professor solicitou ao “Conselho Escolar do Liceu de Aveiro” a organização de récitas escolares de teatro didáctico, destinadas especialmente aos próprios e às suas famílias, em que, sob a direcção de professores, se apresentassem obras de Gil Vicente e doutros autores, mesmo estrangeiros [...]”. [ibidem]. Estava-se já no ano lectivo de 1919-20 e, graças ao teatro vicentino, muitos estudantes tiveram a oportunidade de representar Monólogo do vaqueiro, Exortação da guerra eFarsa de Inês Pereira em Braga, Guimarães, Viana do Castelo e Viseu, com grande êxito. Nas décadas sucessivas, as récitas vicentinas marcaram presença quase obrigatória nas festas anuais do liceu. A partir dos anos sessenta, estes espectáculos tornam-se cada vez mais escassos até que, a partir da década de setenta, deixam de se realizar.
Não foram só os alunos do Liceu Nacional a animar os serões aveirenses. Desde o final do século XIX que as crianças do Asilo-Escola se auto-financiavam através de récitas no Aveirense ou, até, em outras localidades nas redondezas (por exemplo, em 1892, deslocaram-se a Estarreja). Também os alunos da Escola Industrial e Comercial Fernando Caldeira tiveram os seus saraus. Apesar de um reduzido número de apresentações públicas, representaram essencialmente operetas e farsas. Um desses espectáculos – a 20 de Junho de 1942 – foi organizado com o fim de auxiliar os alunos e filiados da Mocidade Portuguesa mais necessitados e incluía um filme documentário das actividades da própria. Por serem espectáculos de beneficência, o público aderia com facilidade pois, o que interessava era o pressuposto da récita e não a qualidade da mesma (anexo III, fig.s 26 a 28).
[1] Como por exemplo, em 10 de Junho de 1936, a Gil Vicente, 12 de Junho de 1950, a Luís de Camões, e 1954, a Almeida Garrett (anexo III, fig. 26).
[2] Afonso Lopes Vieira foi o grande impulsionador deste recuperar das obras clássicas da literatura portuguesa, empreendendo, não só adaptações, algumas hoje contestáveis, como também encenações, estudos e divulgações da obra de Gil Vicente, quer em Portugal quer no Brasil.

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