A crise e as suas razões: chegada do cinema
Como vimos anteriormente, o cinema chegou a Aveiro na primeira década do século XX, durante as Feiras de Março. Em 1910, a concorrência que fez ao Aveirense foi de tal forma que a Administração do mesmo considerou que teria de acompanhar o progresso, sob pena de não acolher importantes receitas e, principalmente, perder para a concorrência o seu público. Estudam-se, então, novas obras de melhoramento, de modo a que também se pudesse acolher este tipo de espectáculos.
Assim, em 1911[1], os espectáculos com fitas começam a intercalar com outros espectáculos, o que contribuía, e muito, para quebrar a monotonia das noites da cidade. Além disso, estava encontrada uma nova forma de lucro, que compensava, de modo geral, certos fiascos e as constantes obras de manutenção. A vida do Aveirense – e dos aveirenses - nunca mais seria a mesma.
Este novo passatempo foi tão bem acolhido que, um ano depois, se fizeram obras para montagem do maquinismo de modo a que o cinematógrafo funcionasse constantemente. Também se inicia a instalação da luz eléctrica, procedendo-se ao alargamento da plateia e ao desaparecimento das frisas. Substituíram-se as cadeiras da geral e as da superior. Comprou-se, ainda uma parcela de terreno, por 202$095, pertença do Liceu de Aveiro, para possibilitar a posterior ampliação da sala. Todo o investimento se justificava.
Contudo, a relação com o cinema foi sempre uma relação de amor-ódio. Se, por um lado, trazia mais receitas do que qualquer outro tipo de espectáculos, por outro, trazia, identicamente, alguns dissabores. A qualidade do material nem sempre era a melhor. Muitas vezes, as fitas estavam já tão gastas que se partiam, para desespero da assistência, que mostrava o seu desagrado destruindo as cadeiras e outros materiais existentes na plateia. Além disso, certas fitas não eram bem acolhidas principalmente pelas pessoas que viam no cinema um meio perigoso de educar a população, sobretudo as crianças, que poderiam imitar o que viam na tela. No entanto, as estatísticas mostram que, as grandes receitas provinham do cinema pois o aluguer das fitas era sempre mais barato que o contrato de uma companhia. Não admira, por isso, que, a pouco e pouco, as opções acabem por ser a organização de mais sessões de cinema em detrimento de espectáculos teatrais.
Esta situação, verificava-se em todo o país. Os custos inerentes à montagem de um espectáculo teatral eram tão elevados que os empresários preferiam não arriscar. Em 1949, José Gamboa, no seu livro De Teatro, lamenta-se que só em Portugal se viva mais para o futebol do que para as actividades que poderão “elevar o padrão de vida económico, intelectual e artístico da nossa população”, comparando mesmo a situação de Lisboa com a de outras metrópoles:
Paris tem 70 ou 80 teatros, Londres e Nova Iorque 40 ou 50, sem contar com os muitíssimos dispersos pelos seus bairros excêntricos, e assim Roma, Berlim, Milão... e até Madrid – com uma área, quantidade de habitantes, níveis económico e cultural sensivelmente aproximados do nosso – possui em permanente funcionamento 20 teatros. [GAMBOA,1949: 185]
Apesar de muitas pessoas culparem o cinema da crise do teatro, José Gamboa discorda de tal. Segundo este autor, a falta de público deve-se, única e exclusivamente, ao “próprio péssimo teatro que muitos dos nossos incapazes e cabotinos directores teatrais têm sempre feito...” [GAMBOA, 1949:187].
A população, no entanto, continuava a preferir o cinema. A seguinte tabela, que reúne os dados enviados para o Instituto Nacional de Estatística nas décadas de quarenta e cinquenta, permite-nos evidenciar que as grandes enchentes aconteciam nas sessões cinematográficas; os espectáculos de teatro raramente esgotavam a sala, cuja capacidade rondava os 750 lugares. A única vez que tal aconteceu, deu-se no dia da reabertura, a 20 de Novembro de 1949, com a Companhia de Revistas do Teatro Maria Vitória, que apresentou a revista Esquimó fresquinho[2]. Contudo, há que referir que, nesta tabela não constam os espectáculos de teatro amador, muito apreciados pela população e que, normalmente, aliciavam um maior número de espectadores. Por exemplo, em 1940, a revista, do Clube dos Galitos, Molho de Escabeche, obteve um êxito colossal, com diversas reposições, sempre esgotadas, sobretudo depois das três triunfantes actuações no Coliseu de Lisboa, mas o número de assistentes não ficou registado nem foi enviado para as autoridades. O mesmo aconteceu no ano seguinte: dos três espectáculos realizados (anexo V), só foi contabilizado um, o da Companhia Estêvão de Amarante, realizado no dia 2 de Julho, uma vez que os outros dois foram apresentados pelos alunos da Escola Comercial Fernando Cadeira e pelo Grupo Cénico do Troviscal.
ANO
|
Cinema
|
Espectáculos de Teatro e variedades
| ||
Número de sessões
|
Assistência
|
Número de sessões
|
Assistência
| |
1940
|
118
|
49.671
|
8
|
3.453
|
1941
|
125
|
41.143
|
1
|
541
|
1942
|
158
|
59.433
|
1
|
665
|
1943
|
181
|
84.167
|
4
|
2.448
|
1944
|
185
|
91.351
|
8
|
4.312
|
1945[3]
|
246
|
114.382
|
12
|
6.432[4]
|
1946
|
241
|
100.362
|
9
|
5.420
|
1947 [5]
| ||||
1948 [6]
| ||||
1949 [7]
|
26
|
13.297
|
1
|
1.737 [8]
|
1950
|
244
|
82.739
|
20
|
13.538
|
1951 [9]
|
97
|
61.373
|
12
|
7.734
|
1952
|
183
|
81.013
|
11
|
6.809[10]
|
1953
|
190
|
82.037
|
13
|
8.271
|
1954
|
188
|
81.355
|
16
|
10.142
|
1955
|
209
|
92.771
|
7
|
6.108
|
1956
|
227
|
95.458
|
11
|
6.557
|
1957
|
220
|
88.198
|
21
|
8.862
|
1958
|
209
|
83.818
|
38
|
17.175
|
1959 [11]
|
104
|
39.680
|
10
|
6.428
|
Analisando estes dados, podemos verificar que, a diferença entre o número de simpatizantes, que assistia aos cinemas e ia ao teatro, é bastante notória, pelo que não admira que a oferta fosse, também, maioritariamente, pelo género de espectáculos que desse mais lucro. É que, além das despesas com o espectáculo em si, havia que contar com as despesas inerentes ao funcionamento de manutenção de uma casa – luz, água, limpeza, empregados, recuperação de material, etc. Como referido precedentemente, várias são as cartas que dão conta das dificuldades financeiras. A limpeza também era, muitas vezes, descurada. Há relatórios de vistorias que detectam problemas de várias ordens. Em Julho de 1952, um fiscal queixou-se do empregado João Figueiredo Pereira, que não aceitou ir para a porta de serviço que lhe tinha sido atribuída; em vez disso, despiu-se, comprou um bilhete e assistiu ao cinema como qualquer espectador. Também há lamentos acerca dos maus cheiros, das retretes mal limpas e das teias de aranha.
[1] No entanto, num dos livros de contas, relativos ao ano de 1907, há uma nota que faz referência a três sessões de cinema, que renderam 8.770$000.
[2] No dia 19 houve um espectáculo para convidados (accionistas, autoridades e individualidades de destaque). O público em geral só no dia seguinte é que teve acesso aos bilhetes.
[3] Para aumentar os lucros, há sessões em mais dois dias por semana.
[5] Ano em que a casa fechou para obras. Enquanto foi possível, e paralelamente com as obras, transmitiram-se filmes, para criar receitas, sem registos claros nos livros; No entanto, há programas em arquivo, como se pode ver no anexo V.
[6] A casa esteve fechada para obras, a maior parte do ano; contudo, há programas em arquivo, como se pode ver no anexo V.
[7] Só consta o 4º trimestre.
[8] Apesar da capacidade da sala ser de 1030 pessoas, houve muitos curiosos que quiseram ver as novidades, depois das obras.
[9] Registos muito incompletos, uma vez que faltam alguns trimestres.
[10] A peça Três num automóvel só conseguiu 80 espectadores!

Comentários
Enviar um comentário